Centenas vivem do lixo no maior depósito da Indonésia
Centenas de indonésios cavam dia e noite
entre as repugnantes montanhas de lixo de um dos maiores lixões da Ásia,
procurando sucatas recicláveis entre os restos em decomposição para
revendê-los e sobreviver com essa renda.
Herianto, de 20 anos, tapa seu sorriso infantil com uma camiseta velha
quando, ao amanhecer, chega com um cesto nas costas e botas de plástico
ao muladar de Bantar Gebang, o único para os 20 milhões de habitantes de
Jacarta e arredores, em meio a um cheiro penetrante de putrefação entre
ácido e doce enjoativo.
"Venho todos os dias por volta das sete da manhã e trabalho até as três.
É melhor chegar cedo, porque depois muita gente se aglomera por aqui. Às
vezes somos milhares", afirma o jovem à Agência Efe.
A atividade é frenética: uma dezena de escavadeiras e tratores removem e
empilham o lixo que chega diariamente, entre 5 mil e 6 mil toneladas por
dia, que não para de chegar em caminhões.
Centenas de pessoas, chamados "pemulung" (literalmente, 'carniceiros'),
caminham entre as montanhas de restos de até 20 metros de altura com um
gancho na mão e milhares de insetos ao redor.
"Eu recolho plásticos. Ganho umas 50 mil rúpias por dia (US$ 5)",
explica Herianto, que considera difícil seu trabalho, mas sempre melhor
que ser agricultor.
Este jovem de uma cidade próxima à capital começou a ganhar a vida nos
mais de 110 hectares de miséria de Bantar Gebang há oito anos, tendo
concluído apenas a educação básica. Ele não tem nenhum plano para mudar
de profissão.
"Todos meus amigos trabalham aqui", explica o indonésio.
Herianto é apenas um entre os cerca de 600 'carniceiros' que as empresas
responsáveis pelo depósito reconhecem oficialmente que vão diariamente a
suas instalações, de forma completamente informal, na busca por
resíduos.
"Eles vêm e recolhem madeiras, papelões, plásticos e metais para seus
chefes, que depois os revende a grandes empresas de reciclagem", afirma
Sinaga, diretor da União Temporal de Empresas indonésias que obteve a
gestão Bantar Gebang para o período 2008-2023.
A maioria deles são recrutados nas zonas rurais mais pobres da
superpopulosa ilha de Java porque aceitam salários inferiores.
Os 'carniceiros' vivem em condições trabalhistas e sanitárias péssimas,
expostos a múltiplas doenças pela putrefação da matéria orgânica e os
riscos físicos de trabalhar em um entorno perigoso sem nenhum tipo de
contrato de trabalho ou seguro.
"Nós não somos responsáveis se algum 'pemulung' sofre um acidente. Estão
em nossas instalações, mas não são nossos funcionários", afirma Sinaga.
O diretor acrescenta que os compradores de seus restos também não
assumirão responsabilidades por eles em alguma emergência.
No entanto, sua situação vai mudar nos próximos anos, porque as empresas
que administram o depósito de lixo desenvolvem o primeiro programa
integral de reciclagem da Indonésia, um país que aprovou a primeira lei
nacional de tratamento de lixo em 2008.
Assim, Bantar Gebang já conta com uma central que aproveita o gás
metano, resultante da decomposição, para gerar eletricidade. A cidade
também acaba de abrir uma fábrica para produzir "compost" (adubo
orgânico) e o ano que vem começará a reciclar plástico, madeira e metal.
A reciclagem de parte do lixo de Jacarta - cerca de mil toneladas
diárias em 2023, menos de 20% do total - resultará na criação de 300
postos de trabalho fixos no depósito, mas acabará com o meio de
sobrevivência de muitos dos atuais 'carniceiros'.
Fonte: Agência EFE |
 



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