Novos negócios nascem do lixo tecnológico
O crescente volume de lixo tecnológico,
como celulares, computadores e televisores descartados pelos
consumidores está movimentando um novo negócio: fábricas que
desconstroem equipamentos para recolocar as matérias primas no processo
industrial, a chamada manufatura reversa. O segmento começa a ser visto
como promissor - vários Estados, como São Paulo, estão criando leis que
obrigam os fabricantes a darem destino correto aos eletroeletrônicos ao
fim de sua vida útil.
Por ser ainda incipiente, não existem estatísticas precisas sobre o
quanto essa indústria movimenta. Mas ela difere dos sucateiros de fundo
de quintal, que desmontam equipamentos para retirar apenas os metais
preciosos, como ouro e prata, presentes nas placas de computadores. "As
empresas que estão se estabelecendo nesse mercado oferecem um serviço
especializado e em conformidade com leis ambientais. Não competem com os
catadores das ruas", diz Diógenes Del Bel, presidente da Associação
Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), entidade que
reúne algumas dessas companhias.
A desmontagem dos equipamentos visa aproveitar as matérias primas.
Componentes como metais e plásticos são separados e vendidos à
indústria, por preços que variam conforme o vai e vêm das commodities.
Mas o Brasil ainda não tem parque tecnológico para recuperar baterias de
celulares e placas de computadores, que são enviados para países como
China, Japão, Estados Unidos e Alemanha para serem totalmente
reaproveitados.
A operadora de telefonia celular Vivo começou a recolher aparelhos e
baterias descartados pelos consumidores há três anos. Conta com 3,4 mil
pontos de coleta, mas o volume coletado ainda é pequeno: ao longo deste
ano, foram recolhidos 105 mil itens. Uma empresa nacional, a GM&C, faz o
serviço de coleta e desmonte dos aparelhos, mas a recuperação completa
dos materiais é feita nos EUA e México. "Ainda não encontramos uma
empresa que preste esse serviço de forma certificada no Brasil", diz
Karina Biderman, diretora de responsabilidade socioambiental da Vivo.
Este ano, o País deve vender 12 milhões de computadores, 47 milhões de
celulares e 9 milhões de televisores, segundo estimativas da indústria.
É difícil calcular o tempo de obsolescência dos equipamentos, mas a
iminência de uma lei nacional que obrigue os fabricantes a dar destino à
sucata já traz boas perspectivas para as empresas.
A Oxil, empresa de manufatura reversa com sede em Paulínia (SP) e filial
em Salvador já sente o aumento da demanda. "O número de equipamentos
recolhidos mais que dobrou do ano passado para cá", diz Akiko Ribeiro,
diretora executiva da Oxil. São recolhidos por mês 40 toneladas de
equipamentos eletrônicos e 4 mil geladeiras. Para dar conta da demanda,
a empresa precisou ampliar em seis vezes o quadro de funcionários:
passou de 10 empregados, há um ano, para cerca de 60.
Fabricantes de informática, como a Itautec, também estão de olho nesse
mercado. Segundo João Carlos Redondo, gerente de sustentabilidade da
Itautec, este ano a demanda por reciclagem tem sido maior que em 2008.
No ano passado, a empresa destinou 469,97 toneladas de equipamentos para
a reciclagem, o que corresponde a menos de 10% da renovação de
equipamentos pelos clientes da Itautec.
A empresa conta com uma área de gestão ambiental de 715 metros quadrados
em Jundiaí, onde chegam os equipamentos para a separação do material,
que é enviado a terceiros. "Nesse lugar, separamos plástico, cabeamento,
placas e metais".
A venda de material cobre somente 72% do custo da reciclagem. Um dos
itens mais caros para a reciclagem são os tubos dos monitores, a um
custo de R$ 500 por tonelada. "Se fôssemos mandar o material para o
aterro, esse custo seria de R$ 90", disse o executivo. O vidro dos
cinescópios é descontaminado e reaproveitado para produção de cerâmica.
A maior parte do material é reciclado no Brasil. A exceção são as
placas, que são enviadas para a Bélgica e para Cingapura. "O
investimento em uma planta local, com capacidade de 25 mil
toneladas/ano, ficaria em cerca de US$ 5 milhões", afirma Redondo. "O
Brasil já comportaria uma instalação dessas, mas ainda ninguém se
interessou em investir".
Fonte: Gazeta do Povo |
 



|