A ‘papelada’ que emperra a coleta seletiva no Rio

O caminho entre a lixeira da sua casa e a cooperativa de reciclagem é uma maratona desanimadora. Para proteger o meio ambiente, na cidade do Rio, é preciso ter muito fôlego para enfrentar a burocracia ambiental. Falhas no serviço e muita desinformação emperram a coleta seletiva, que reaproveita apenas 1% do que é recolhido pela Comlurb. O montante reciclado em um mês é muito menor do que o volume retirado das ruas em um dia.

Somente 42 dos 160 bairros cariocas contam com o serviço em casa. Estendê-lo para a cidade toda custaria R$ 29 milhões, segundo a Comlurb. Mas mesmo nas regiões já atendidas há buracos: caso de Dona Emy Soares, cuja rua, na Tijuca, nunca viu a seletiva passar — apesar de o site da Comlurb garantir o contrário. “No Brasil é tudo pela metade”, diz.

Nos bairros desamparados, a maioria nas zonas Norte e Oeste, resta ao cidadão correr atrás — mas esse percurso é árduo. Em todo o município, só existem cinco cooperativas cadastradas pela Comlurb. “Não há espaço físico para processar o material reciclado que chega dos caminhões. O que sobra vai para aterros clandestinos. O esforço da população vai para o lixo”, afirma Edson Freitas Gomes, presidente da Associação das Empresas Recicladoras do estado.

Caminhões errados

Edson vê erros já na coleta da Comlurb. “Não podem usar caminhões compactadores. Ensinam a gente a separar os materiais, mas eles acabam esmagando e misturando tudo. Isso atrasa demais o trabalho na cooperativa. E há o risco de contaminar a carga. Basta rachar uma garrafa com restos de bebida”, cita. O ideal seriam carretas do tipo gaiola, onde o lixo é levado solto, em sacolas.

A prática do dia a dia desanima a quem aprende desde cedo a cuidar do planeta. Os irmãos Larissa, 13, e Felipe Marques, 9, sabem direitinho o que fazer com parte do lixo e até o separam. Mas, na Vila da Penha, onde moram, a dedicação é em vão. “Seria bom que toda a cidade tivesse coleta seletiva”, lamenta Larissa.

Educadora ambiental do Instituto Aqualung, Verônica Castro faz duras críticas ao governo: “O programa de gestão ambiental do Rio se perdeu no caminho. Não há continuidade nem campanhas maciças em escolas e comunidades”.

Na Tijuca, rua de D. Emy tem coleta ‘virtual’

Todo dia, a professora aposentada Emy Soares Dias, 70 anos, separa o lixo, em seu apartamento na Tijuca, para a reciclagem. No site da Comlurb, a rua onde ela mora, a João Alfredo, está incluída no roteiro do caminhão da coleta seletiva. Mas, segundo ela, o veículo nunca passou na sua rua. “É uma coleta só para enfeite. Já liguei várias vezes para a Comlurb, pedindo o serviço. Eles dizem que o caminhão passa, mas ele apenas recolhe o lixo em duas ruas depois da minha”, reclama.

A saída, encontrada por Dona Emy, foi continuar separando o material e esperar pela chegada dos catadores. “Eles escolhem o que querem e levam, mas deixam um rastro de sujeira em frente ao prédio”, queixa-se.

Nem assim ela desanima. Moradora do bairro há 13 anos, a aposentada se preocupa em lavar todo o descarte para chegar limpo às cooperativas. A gordura que fica na panela não vai para o ralo. “Misturo farinha para secar e depois limpo com jornal”, explica. Ela ainda separa jornais e papelão. “Eu faço a minha parte, mas no Brasil infelizmente as coisas não funcionam”, lamenta.

Consumidores trocam lixo reciclado por descontos na conta de luz

Moradores de Niterói, Cabo Frio, Araruama, São Gonçalo, São Pedro da Aldeia e Teresópolis estão trocando o seu lixo reciclável por descontos na conta de luz. A iniciativa é da Ampla, que montou 12 postos de coleta. Os endereços estão em www.ampla.com/pop_eco_ampla.html. Para participar, leve lâmpada ‘amarela’ para receber outra mais eficiente.

Dez trocas no mês dão direito ao sorteio de geladeira. Demais resíduos, como papelão, vidro e alumínio, são pesados e o bônus, creditado na fatura. Sônia Rodrigues ganhou R$ 15 para abater da conta de R$ 105. “Vale muito a pena. Venho toda semana. Estou ajudando o planeta”, diz. O programa Consciência EcoAmpla arrecadou em um ano 400 toneladas de lixo, cadastrou 35 mil clientes e concedeu R$ 67 mil em bônus.

Dicas

Seleção de material
A coleta seletiva consiste em separar em três sacolas o lixo seco reciclável (papelão, jornais, revistas, plástico, vidro, metal), o úmido (orgânico, restos de comida, guardanapos) e o perigoso (lâmpadas fluorescentes, baterias de celular e pilhas).

Produto valorizado
Material limpo tem mais valor no mercado. Por isso é importante lavar e escorrer as embalagens com restos de alimentos antes de separar para a reciclagem.

Saco transparente
O lixo reciclável deve ser colocado limpo e seco em sacos plásticos transparentes, para que o gari da coleta seletiva veja o conteúdo e não misture o material com o restante do lixo domiciliar.

Economize espaço
Amasse garrafas PET e latinhas. Desmonte caixas de papelão e junte-as a jornal e papel em fardos bem amarrados com barbante.

Planta pelo óleo
A Fiocruz troca garrafa de óleo por uma muda de planta. O óleo poderá ser entregue em garrafas PET, que são encaminhadas para recicladoras que o transformam em sabão e detergente.

Reutilize ao máximo
Em vez de jogar no lixo, doe materiais que ainda possam servir a outras pessoas. Crie o hábito de usar embalagens retornáveis como refil.


Fonte:  Eduardo Pierre e Maria Luisa Barros (O Dia)