Casal troca o mar por casa de pneus
Após quase 12 anos viajando ao redor do
mundo a bordo de veleiro, Vera e Yuri Sanada naufragaram na costa do Rio
de Janeiro, em 2005. A embarcação não era apenas a casa deles, mas
também contemplava a produtora do casal, onde foram investidos US$ 400
mil. Quando viram tudo ir água abaixo, não se abateram. Iniciava-se,
então, um período de renovação. Hora de colocar em prática um outro
projeto mais antigo: a construção de uma casa orgânica, cujas paredes
são de pneus inservíveis.
Erguida na Serra da Mantiqueira, na Estância Turística de Joanópolis, a
obra já tornou-se ponto de visitação. Próximo a Bragança Paulista e a
dois quilômetros de Minas Gerais, terá mais de 400 metros quadrados -
com direito a piscina e sauna. “Se fosse pequena, viraria hippie”,
comenta Yuri. Se depender dele, a construção será exemplo tanto para
quem tem alto poder aquisitivo, quanto para famílias pouco abastadas. A
experiência deles foi apresentada no câmpus da Unesp (próximo à
biblioteca), onde aconteceu o 1.º Fórum Empresarial de Responsabilidade
Social e Sustentabilidade.
“A ideia é que as pessoas possam olhar nossa casa e, depois, fazer casas
populares, para elas mesmas. A primeira fase termina agora, no ano que
vem (com a conclusão da obra). A segunda é fazer um grupo de casas
populares em regime de mutirão. É ensinar as pessoas a fazer a própria
casa com pneu, de produto reciclado, de barro, terra”, acrescenta Yuri.
De acordo com ele, além do material usado na obra não ser usual, ela
ainda tem um sistema diferente. A água, por exemplo, é reciclada quatro
vezes antes de voltar à natureza. O esgoto é tratado ali mesmo.
Modelo
“A idéia fica 30% mais barata que uma construção normal. A gente fez um
acordo com a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos. Entregam
pneu no seu terreno para construir porque a indústria tem que reciclar
pneus”, explica. Para obter licença e fazer quatro pneus, a indústria é
obrigada a reciclar cinco, comenta o biólogo, produtor e roteirista
Yuri. Recentemente também tornou-se pedreiro e mestre-de-obras. Com as
mãos calejadas, ergue a própria casa que recebe o apoio do Instituto
Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“Já que é para ser modelo, vamos residir. Temos que provar que funciona.
Ela fica próximo a São Paulo. Fica fácil a visitação. No veleiro a gente
já recebia escolas. O que a gente quer é que as pessoas aprendam e vejam
como é no dia a dia”, afirma Vera. Ela relembra quando estavam numa
feira de mergulho e viram, pela primeira vez, o projeto da casa numa
revista de Jacques Cousteau. Desde então, procuraram o projetista e
trocaram idéias, na época, por fax. O criador da proposta é do Novo
México, nos Estados Unidos.
Agora, se tudo der certo, tornará, inclusive, núcleos habitacionais
brasileiros. O objetivo é que a comunidade beneficiada monte no início
das obras e depois mantenha uma mini-indústria de reciclagem. “Depois
que acabar a construção, continua gerando recursos para a própria
comunidade. A busca pelo barco já foi essa coisa de querer autonomia
sobre sua própria vida. Poder viajar de um país para o outro e controlar
mais o ambiente onde mora”, finaliza ele.
Renovação
O casal Sanada naufragou num ponto conhecido como Cabo Horn brasileiro,
ou seja, famoso pelas difíceis condições de navegação. Está situado logo
depois da ponta da Joatinga, na costa do Rio de Janeiro. “Nós nunca
tínhamos passado perrengue, até que o primeiro levou o barco a pique”,
comenta Vera. Dois meses depois, ela e o marido já levavam uma mostra de
cinema brasileiro para o Japão.
“Foi muito rápida a recuperação porque nossa atitude foi de renovação. A
água é símbolo de renovação. Começou, então, num novo ciclo da nossa
vida”, diz Yuri. Faz 20 anos que estão juntos. Ele é biólogo e ela
publicitária especializada em moda, se conheceram no consulado italiano
em Londres, Inglaterra. Logo no início do relacionamento foram conhecer
pessoas que moram em barcos no rio Tâmisa.
“Ele era bem aventureiro. Já tinha feito o Brasil de bicicleta. Eu
velejava e ele mergulhava. A gente juntou o útil ao agradável. Fomos
morar em Israel, em kibutz para conhecer o sistema de comunidades”,
comenta Vera. Depois viajaram de carona em embarcações, pagaram,
receberam dinheiro por serviços prestados em alto mar. O paranaense de
Londrina e a gaúcha de Nova Hamburgo conheceram cerca de 50 países.
No Japão, tiveram uma escola de mergulho para brasileiros. Depois, já no
veleiro, passaram a trabalhar com produção cultural. São roteiristas e
produtores. Atualmente, dirigem um documentário para o Museu Britânico,
uma série para o Fantástico e prestam consultorias de mar. “Já que a
gente tem a possibilidade de transformar nossa realidade, por que não
ajudar as pessoas? Então, a casa orgânica é também isso”, concluem.
Outras informações podem ser obtidas no site http://www.aventura.com.br.
Preocupação térmica
Os pneus utilizados para erguer as paredes da residência de Vera e Yuri
Sanada são aterrados. A idéia garante equilíbrio térmico ao imóvel. “A
parede é de pneu maciço, muito grossa. Pode ter sol batendo o dia todo
que o calor não entra. Em casa de concreto, bate sol 15 minutos e o
calor já está dentro. Por ser embutida na terra, a nossa não (tem esse
problema)”, explica ele.
Yuri lembra quando morou com Vera no Japão, onde as paredes são de gesso
com armação fina de alumínio por conta dos terremotos. “Não tem nenhum
controle térmico. A gente buscava um modelo de casa, mesmo no barco, que
controlasse mais a temperatura ambiente. Que tivesse menos gasto de
energia para estar confortável”, explica. O imóvel contará também com
cimento e ferros. O casal ainda gostaria de usar uma espécie de
“madeira” feita com pet, mas o produto ainda é muito caro.
“Não poderíamos morar numa casa normal. Não seríamos nós dois”, comenta
Vera. O conceito da casa deles foi usado até por Bill Gates, que tem um
imóvel embutido numa montanha, como se fosse uma gruta. Mas a tal
sustentabilidade, tão pregada atualmente, é utilizada pelo casal há
anos. Só a ideia da casa está prestes a completar maioridade.
Fonte: JCNET |
 



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