Cresce pressão sobre sacolas plásticas

No Rio de Janeiro foi sancionada a Lei 5.502/09 de autoria do Governo do estado que determina a coleta e a substituição das sacolas ou sacos plásticos, compostos por polietilenos, polipropilenos e/ou similares por outras de material reutilizável. Agora, todos os estabelecimentos comerciais terão até três anos para substituir sacolas plásticas descartáveis por bolsas retornáveis. “O objetivo é acabar com o uso de produtos elaborados a partir de resina sintética oriunda do petróleo, como é o caso, por exemplo, do polietileno de baixa densidade, utilizado na fabricação das sacolas plásticas, que, além de não serem biodegradáveis, obstruem a passagem da água, acumulando detritos e impedindo a decomposição de outros materiais”, explicou o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deputado Jorge Picciani (PMDB).

O plástico foi incorporado de tal forma na sociedade moderna que parece inconcebível pensar em consumo sem associar o material. Toda vez que um consumidor compra um produto, leva um pouco de plástico. Seja no brinquedo, na utilidade doméstica, nas embalagens de medicamentos, cosméticos, e nos eletroeletrônicos. Sempre que o consumidor passa por um caixa de loja adquirindo um produto, leva no mínimo, uma sacolinha plástica para acondicionar a compra. É a chamada cultura do plástico.

Contudo, para Fábio Mestriner, Coordenador do Núcleo de Embalagens da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o material enfrenta a chamada perseguição ambiental. “A sociedade vive um culto de cultura focada no problema ambiental e com as informações erradas que recebe sobre o plástico acaba crucificando o material; os políticos aproveitam o aplauso fácil do eleitorado”, afirmou referenciando legislações e iniciativas favoráveis à redução de embalagens plásticas em evento na sede da ABIPLAST, em São Paulo.

A Lei sancionada diz que os estabelecimentos terão de recolher as sacolas plásticas e dar um destino “ecologicamente correto” as mesmas, por exemplo, a reciclagem. Diz também que os estabelecimentos que fornecerem sacolas plásticas não biodegradáveis terão que dar desconto de 3 centavos a cada 5 itens comprados sem se valer de sacolas plásticas pra levá-los pra casa. E a cada 50 sacolas que qualquer pessoa levar ao estabelecimento, este terá que trocar por 1 k de feijão ou outro produto que componha a cesta básica.

Determina que a coleta e substituição dos sacos plásticos por outros de material reutilizável. As microempresas terão 3 anos para cumprir a determinação, as de pequeno porte, dois, e os médios e grandes estabelecimentos, um ano. Após o prazo, os estabelecimentos serão obrigados a dar descontos ou recolher sacolas plásticas dos consumidores. E ainda determina que no prazo de um ano, os estabelecimentos realizem campanhas de educação ambiental e conscientização, junto aos locais de embalagens de produtos e junto aos caixas.

Para Assis Esmeraldo, presidente do Instituto Plastivida - SP, entidade que representa institucionalmente a cadeia produtiva do setor de plástico para promover educação ambiental, o decreto é inaplicável e justifica como sendo inconstitucional. “Não se pode legislar proibindo um produto em detrimento de outros. Por que não se promove a coleta seletiva? Ou por que não se cumpre a Norma ABNT 14937, na qual é exigido que as sacolas plásticas suportem até 6 k? Isso iria racionalizar o uso do plástico. Do jeito que está [a lei] é o próprio samba do crioulo doido”, expressa Esmeraldo.

Alfredo Schmitt, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF), julga que o grande impacto dessa lei será o econômico. “Mais de 330 mil pessoas estão empregadas na indústria de plásticos”, afirma. Julga que o uso das sacolas retornáveis está acontecendo por interesse dos supermercados em vender um novo produto e com um agravante segundo ele: “As sacolas são de qualidade ruim, acumulam fungos forçando os clientes a utilizar mais água e detergente para a limpeza. Termina sendo muito pior”. A rede Pão de Açúcar registrou um aumento de mais de 500% no ano passado com a comercialização destas sacolas. Em 2007 foram vendidas 43.423 unidades e em 2008 esse número subiu para 323.023.

Sobre as sacolas plásticas, Alfredo Schmitt, as considera ambientalmente corretas: “São atóxicas, inertes e 100% recicláveis. E ainda são as únicas embalagens que suportam 1500 vezes o próprio peso”. Os defensores das sacolas plásticas alegam que elas são de grande utilidade para armazenar os resíduos das residências e que, na falta delas, os consumidores não comprarão outras opções e usarão materiais impróprios para tal fim, como jornais. “As pessoas pobres não vão comprar sacolas de jeito nenhum. Esses materiais irão se dissolver e deixar o lixo ao ar livre, poluindo muito mais a natureza”.

Em 5 de junho passado, o governador Cid Gomes assinou um decreto que proíbe na área pública estadual o uso de copos descartáveis e sacolas plásticas. Marcelo Silva, presidente do Partido Verde do Ceará, declarou ser totalmente favorável a toda e qualquer ação que restrinja o uso dos plásticos, pois causam grande impacto ao meio ambiente. Lembrou que a questão passa pela educação ambiental e consumo consciente. “A facilidade de produzir é tão grande que estimula o consumo exacerbado. Reduzir o consumo do plástico representa um ganho enorme para o meio ambiente. Sou totalmente a favor” - declarou o político.

O empresário Marcos Albuquerque, presidente do Sindicato das Indústrias de Reciclagem do Estado do Ceará (Sindverde), também destaca a educação ambiental. “O nosso pensamento é orientar para a destinação correta e para a educação ambiental.” Para ele, a sacola plástica deve ser vista como PET, que tem valor para reciclagem. “A garrafa PET não tem uma orientação para a reciclagem, por que não com a sacola plástica? Outra coisa, se não tiver a sacola o consumidor vai ter que comprar sacos plásticos na loja. Como embalar o lixo úmido?”, finalizou Albuquerque.

O Brasil consome 12 bilhões de sacolas plásticas por ano e cada brasileiro usa cerca de 66 sacos por mês, segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). São produzidas 210 mil toneladas anuais de plástico filme (a matéria-prima das sacolas de supermercados) e, que já representa 9,7% de todo o lixo do país. No mundo, são mais de 500 bilhões de saquinhos utilizados por ano. E estimativas como as do site Reusable Bags (em inglês, sacolas reutilizáveis) afirmam que demoram até 300 anos para biodegradarem.

Reciclagem

A reciclagem é considerada a destinação mais adequada para os plásticos, mas ainda é prejudicada em decorrência dos poucos programas de coleta seletiva. Para reciclar é preciso antes segregar. “A reciclagem vai resolver o problema da destinação, gera emprego e renda”, afirmou Marcos Albuquerque, presidente do Sindicato das Indústrias de Reciclagem do Estado do Ceará (Sindverde), da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

O empresário explica a importância dos aspectos ambientais, sociais e econômicos da reciclagem. “A indústria do plástico filme (utilizado na fabricação das sacolas plásticas), o mercado do catador de resíduos passando pelo dono do depósito ou associação onde ficam acumulados os materiais recolhidos, os pequenos empreendedores e a indústria recicladora geram de 5.000 a 5.300 empregos”.

Sacolas Oxi-biodegradáveis

São produzidas com material semelhante ao plástico comum, mas com aditivos químicos que acelerariam a decomposição por meio de oxidação com a luz, com o calor e com microorganismos. Causam polêmica porque a degradação duraria em torno de 18 meses, mas ainda causaria danos à natureza em função dos aditivos químicos.

Estudos apontam que o novo plástico não se decompõe a curto prazo e que por isso não podem ser chamados de “biodegradáveis”. Além disso, as partículas resultantes da decomposição podem liberar gases como CO2(dióxido de carbono) e Metano, gases do efeito estufa (GEE).

Documento do Plastivida afirma que o pó da decomposição vai impactar os recursos hídricos e prejudicar a fauna e a flora, assim como o cidadão que ingerir água contaminada. Para o presidente do instituto, “o Oxi é um grande engodo. Se é para ser biodegradável que se cumpra. É preciso entender que para se biodegradar o produto exige uma série de condições para que isso ocorra. Não é o simples fato de jogar fora que ele se biodegrada. É necessário um processo de compostagem, uma usina que o Rio não tem”. A Resbrasil, fabricante do plástico oxi-biodegradável, afirma que tem estudos provando a eficácia do produto.

O Saco é um saco: Pra cidade, pro planeta, pro futuro e pra você

Com o objetivo de conscientizar o consumidor para a redução do uso dos sacos plásticos e sua substituição por sacolas retornáveis, foi lançada em junho a campanha nacional “Saco é um Saco”. A campanha é uma parceria do Ministério do Meio Ambiente com apoio da rede de supermercados Wal-Mart.

A iniciativa será veiculada na televisão, cinema, internet, rádio, jornal e revistas, além de distribuição de folhetos. Dividida em quatro fases e inclui avaliação final, busca incentivar o consumo consciente e vai investir em parcerias com estabelecimentos e material de divulgação.


Fonte:  Jornal O Estado