O caso do lixo importado

Foi preciso que o Brasil recebesse 89 contêineres com 1,5 mil toneladas de lixo doméstico e hospitalar produzido na Grã-Bretanha - com direito a fraldas, seringas e camisinhas usadas - para que os brasileiros ficassem sabendo de uma prática corriqueira na indústria nacional de matérias-primas: a importação de materiais recicláveis.

Sim, o Brasil importa lixo. A indústria nacional gastou 257,9 milhões de dólares em dezoito meses (entre janeiro de 2008 e junho deste ano) para trazer, legalmente, de países onde a coleta seletiva é uma realidade, 223 mil toneladas de restos de plástico, papel, vidro, cobre, alumínio, pilhas usadas e outros produtos que não consegue comprar no mercado interno - informa reportagem de Adriana Carranca no jornal O Estado de S. Paulo (26/07).

É claro que o Brasil poderia ser autossustentável nesse quesito, mas, até mesmo no que diz respeito ao lixo, ainda não declarou sua independência. Enquanto as indústrias brasileiras compram resíduos sólidos de países desenvolvidos, nosso país literalmente joga fora - com gastos gigantescos e prejuízos ambientais incalculáveis - a maior parte do material reaproveitável, descartado juntamente com o lixo que não se pode reutilizar.

Dos cerca de 463 quilos de lixo produzidos em média pelo cidadão brasileiro, ao longo de um ano, apenas 101 kg são submetidos a alguma forma de separação com vistas à reciclagem. Os outros 361 kg são atirados fora, em lixões abertos ou aterros sanitários, onde plásticos, metais e pilhas vão contaminar a terra por muitas gerações.

Se a coleta seletiva fosse praticada em todo o seu potencial, dos 463 kg seriam retirados cerca de 185 kg de materiais diversos, que deixariam de poluir o meio ambiente e evitariam que a indústria nacional tivesse que importar o lixo dos países desenvolvidos. E isso sem falar na reciclagem do lixo orgânico, que reduziria a quantidade descartada a uma pequena fração do volume atual.

O caso dos contêineres cheios de lixo doméstico, que acabaram sendo devolvidos para o Reino Unido depois de constatado o engodo, serviu para abrir os olhos dos administradores públicos e da população em geral para os benefícios da coleta seletiva. Em lugares como o Reino Unido, a reutilização de materiais está tão universalizada que a indústria não consegue dar conta de toda a matéria-prima disponível. Esses países ganham dinheiro exportando seus resíduos para povos menos organizados, que ainda não têm o hábito de reciclar.

Políticos brasileiros ficaram indignados com a remessa de lixo sujo para o Brasil. Sem esperar o desfecho da história (há sinais de que foi praticado um golpe pelos exportadores britânicos, e três pessoas já teriam sido presas pela polícia de lá), o presidente Lula reclamou dos países ricos, que são tão limpos e, no entanto, mandaram até camisinha usada para o Brasil.

A carga de lixo doméstico feriu os brios dos brasileiros, mas o Brasil deveria se envergonhar de comprar qualquer tipo de resíduo. E não pela importação em si, mas pelo que ela representa: a incapacidade de estabelecer programas competentes de coleta seletiva, para alimentar a indústria da reciclagem e deixar de jogar dinheiro fora.

Este é um terreno em que Sorocaba, com a experiência bem sucedida de suas cooperativas de reciclagem, somada a ecopontos, fábrica de sabão, usina de reciclagem de entulho - e, principalmente, uma consciência cada vez mais presente na população, que aprendeu a separar o lixo reciclável do orgânico, antes de colocá-lo para fora de casa -, tem muito a ensinar.

A experiência sorocabana faz da cidade uma ilha de bom senso em um mar de desperdício. Independente do muito que ainda existe por fazer, a reciclagem é uma conquista da qual a comunidade deve se orgulhar.


Fonte:  Jornal Cruzeiro do Sul