Resíduo volta a ser lixo
Todas as manhãs, Tian Wengui sai da casa
que ele faz embaixo de uma ponte da cidade, com dois grandes sacos
pendurados do ombro. Durante todo o dia e parte da noite ele procura no
lixo garrafas de refrigerante, recipientes de molho de soja e de óleo de
cozinha. Vendendo resíduos para um dos grandes depósitos de reciclagem
de Pequim, Tian ganha R$ 7 em um dia bom. Mas os dias bons estão ficando
raros. Desde que Tian migrou da Província de Sichuan, a indústria
bilionária da reciclagem caiu em parafuso por causa da crise econômica
global e da queda concomitante dos preços das matérias-primas. Hoje as
garrafas são vendidas pela metade do preço que tinham no verão.
"Até o lixo perdeu o valor", disse Tian recentemente, enquanto se
dirigia para um centro de coleta com os sacos repletos. O colapso da
indústria de reciclagem afetou pessoas como Tian, os intermediários que
compram os produtos do lixo e as fábricas que transformam dejetos
reciclados em produtos destinados a lojas e canteiros de obras de todo o
mundo. Negociantes de lixo americanos e europeus que vendem para a China
estão vendo seus carregamentos ser recusados pelos clientes quando
chegam à Ásia. A última vítima poderá ser o meio ambiente, já invadido
por lixo em alguns lugares a ponto de ameaçar a saúde das pessoas, hoje
mais afetada por dejetos que até recentemente seriam reciclados.
O efeito está sendo sentido agudamente na China, maior importador de
lixo do mundo. Os EUA, por exemplo, exportaram 10,5 milhões de toneladas
de papel e papelão recuperado no ano passado para a China, em comparação
com 1,9 milhão de toneladas em 2000, segundo a Associação de Papel e
Florestas dos EUA.
Como o consumo chinês é muito menos desenvolvido que o do Ocidente, mais
de 70% dos materiais que alimentam a indústria de reciclagem do país
devem vir do exterior, disse Wang Yonggang, porta-voz da Associação de
Reciclagem de Recursos Naturais da China. "A tradição chinesa é de
poupar e ser parcimonioso", ele disse. "As pessoas aqui costumam mandar
consertar as coisas várias vezes antes de jogá-las fora".
A queda nos preços das matérias-primas foi tão rápida que em questão de
semanas, no final de 2008, navios de contêineres carregados com rodas de
trens usadas e latas de comida para cachorro vazias chegaram aos portos
chineses valendo muito menos do que quando partiram de Newark, Roterdã
ou Los Angeles.
"Tudo estava indo bem até outubro, então caímos de um penhasco", disse
Bruce Savage, porta-voz do Instituto de Indústrias de Reciclagem de
Dejetos, organização setorial que representa principalmente as
processadoras de lixo americanas. Os EUA exportaram US$ 22 bilhões em
materiais recicláveis para 152 países em 2007. Hoje a organização estima
que o valor dos recicláveis americanos caiu de 50% a 70%.
Negociantes ocidentais dizem que estão reunindo estoques crescentes cujo
valor, em muitos casos, continua caindo. Para piorar as coisas, os
importadores chineses pedem renegociações drásticas dos contratos. Em
alguns casos eles se recusam a aceitar carregamentos pelos quais já têm
obrigação contratual.
"Ainda há muitos contêineres cheios de lixo parados no porto em Hong
Kong", disse Wang, da associação de reciclagem chinesa. Os tempos
difíceis estão atingindo os recicladores chineses em todos os níveis. Em
um dia recente, Chen Xiaorong, 36, estava sentada sobre uma vasta ilha
de blocos, revistas e livros escolares empilhados perto de sua pequena
casa de tijolos vermelhos, com uma torre de jornais pairando sobre ela.
"Conheço pessoas que perderam tudo apostando na reciclagem", ela disse.
Muitos de seus vizinhos voltaram para o campo, e os R$ 1.600 que a
família inteira de Chen ganharia por mês encolheram para R$ 800. Olhando
para páginas descartadas dos poemas do presidente Mao, ela acrescentou:
"Hoje a China tem mais latas de lixo do que pode digerir. Nós realmente
precisamos do lixo americano?".
Fonte: Dan Levin (Folha de S.Paulo / The New York Times) |
 



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