Lixo cria "pessoas residuais", alerta pesquisadora da UnB
Os catadores de resíduos sólidos precisam
ter recicladas suas condições de trabalho. Essa é uma provável conclusão
de qualquer pessoa que visite um aterro sanitário ou observe em sua rua
catadores que buscam materiais recicláveis em latas de lixo.
“Essas pessoas [catadores] estão sujeitas a muitos riscos, eles
trabalham em lugares e sob condições inadequadas, insalubres e
perigosas”, alerta Valéria Gentil, pesquisadora e doutoranda do Centro
de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB).
“Eu trato, no meu trabalho, como pessoas residuais”, diz a pesquisadora,
ao citar conceito usado para identificar quem está à margem do mercado
formal de trabalho. “Essas pessoas são a sobra e a sombra do sistema”,
complementa. As condições de trabalho e exploração estudadas pela
pesquisadora também são caracterizadas pelo convívio com animais
transmissores de doenças (ratos, baratas, moscas) e riscos físicos,
químicos, biológicos e ergonômicos.
O catador Joaci Oliveira dos Santos trabalha no Lixão da Estrutural,
localizado perto da rodovia que liga Ceilândia e Taguatinga, as cidades
mais populosas do Distrito Federal, ao Plano Piloto, onde está o Palácio
do Planalto, o Congresso Nacional e a sede do Supremo Tribunal Federal
(STF).
Santos trabalha há dez anos no lixão e diz que, durante esse período,
chegou a presenciar mortes por atropelamentos e esmagamentos no local.
Casos como esses também estão na memória da catadora Lúcia Fernandes do
Nascimento, que já se furou diversas vezes com seringas descartadas no
lixo.
Há 14 anos no Lixão da Estrutural, o catador João Alexandre Carmo, de 50
anos, reclama de fortes dores nas costas e diz que essa é uma das
atividades mais duras em que já trabalhou. Ele conta que já foi
engraxate, vendedor de picolé, consertou panelas e trabalhou até como
palhaço.
A chance de reciclar as condições de trabalho podem estar na formação de
cooperativas. “O importante é fugir do trabalho na informalidade
autônoma, se organizar em uma cooperativa para que haja produtividade
maior e proteção social”, avalia o diretor executivo do Compromisso
Empresarial para a Reciclagem, André Vilhena. A organização é financiada
por 25 grandes empresas privadas que utilizam material reciclado na
embalagem de seus produtos.
Para o professor Pedro Zuchi, do Centro de Estudos em Economia e Meio
Ambiente (Cema) da UnB, a economia solidária das cooperativas é uma boa
estratégia para melhorar as condições de vida dos catadores. Ele
ressalta, no entanto, a necessidade de o Poder Público e a sociedade
encararem de outra forma o mercado de resíduos sólidos recicláveis.
“Essas pessoas desempenham um papel muito maior do que o de catadores de
lixo, mas um papel de reciclagem em uma sociedade de consumo que não tem
percepção exata desse problema, de quanto o meio ambiente consegue
absorver dessa quantidade de resíduo que está sendo gerada”, aponta o
economista.
A maioria do lixo produzido no Brasil vem dos setores mais ricos, com
maior capacidade de consumo. Segundo estudo publicado no ano passado
pelo WWF e pelo Ibope, “se todos no mundo adotassem o mesmo padrão de
consumo das classes A e B brasileiras, seriam necessários três planetas
Terra para repor os recursos naturais utilizados”.
Pedro Zuchi acrescenta que é preciso desativar os lixões, levar os
trabalhadores para os galpões das cooperativas e manter na escola as
crianças que costumam acompanhar os pais no lixão. O catador Joaci
Oliveira Santos confirma que as cooperativas não admitem a presença de
crianças e acrescenta que elas devem receber cuidados especiais, bem
longe dos aterros.
Fonte: Agência Brasil |
 



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