Crise atinge até catadores de papel que trabalham nas ruas do RS
A crise financeira internacional está
atingindo cada vez mais setores da economia brasileira. Uma destas novas
vítimas é o setor de reciclagem, principalmente na parte do papel. De
acordo com o diretor do Sindicato das Indústrias do Papel, Papelão,
Celulose e Cortiça do Rio Grande do Sul, Thiago Porciúncula, a redução
de crédito das comoditties (mercadoria de exportação) da celulose, em
virtude da redução das vendas para outros países, derrubou o preço
interno da matéria-prima, usada para fabricação do papel branco. Com
isso, hoje é mais vantagem para a indústria produzir o papel branco do
que o reciclado, que exige mais investimento.
A situação provocou uma queda de 90% no preço do quilo de papel
recolhido pelos catadores nas ruas. "Uma empresa que produz duas mil
toneladas mensais de papel branco precisa de um investimento de R$ 20
milhões. Já para fazer a mesma quantidade com papel reciclado, o
investimento tem de ser o dobro e o custo final termina 20% mais caro",
explica Porciúncula. O diretor destaca que com a redução da demanda o
Brasil, maior produtor de celulose de eucalipto do mundo, viu o preço da
matéria-prima cair 40%. "Ou seja, os custos se equipararam e a celulose
está tomando território do reciclado".
Cadeia
"O resultado prático disso é que as empresas estão parando de comprar
papel para reciclagem e o preço do quilo para os catadores, que era em
média de 30 centavos, caiu para cerca de 3 centavos". De acordo com
Porciúncula, a cadeia de reciclagem conta hoje com 1,5 milhão de
catadores em todo o Brasil, sendo 28 mil no Rio Grande do Sul e cerca de
500 trabalhadores em São Leopoldo. "Se essa estrutura desaparecer, o
País terá 350 mil toneladas de lixo de papel a mais em suas ruas todos
os meses. Por isso, estamos com um grupo formado pelo nosso sindicato, o
deputado estadual Carlos Gomes e Marli Medeiros, representante de
catadores de Porto Alegre, e vamos ter uma reunião com a governadora
Yeda Crusius para tratar do problema".
Entre as solicitações que serão entregues ao Estado estão o pagamento de
25% de crédito presumido ao setor, o crédito do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS) para a reciclagem e abertura de linhas
de crédito para catadores, compradores e para a indústria de reciclagem.
Associação confirma perdas
O presidente da unidade de triagem da Associação de Catadores e
Recicladores do Município de São Leopoldo (Uniciclar), José Luís dos
Santos, confirma a crise. "O pessoal tirava em média 230 reais por mês
na reciclagem e hoje consegue apenas 120 reais. Já tive pessoas que
desistiram do trabalho devido aos baixos preços pagos hoje pelo quilo do
papel, que caiu de 30 para 7 centavos o papelão". A afirmação de Santos
é verificada nas palavras do ex-catador de papel Carlos Roberto Haakel,
50 anos. "Parei de catar papel há dois meses porque o preço pago caiu
muito".
O secretário municipal de Meio Ambiente, Darci Zanini, salienta que a
crise se aprofunda no Brasil por não haver uma política nacional de
resíduos sólidos, que há dois anos espera aprovação no Congresso
Nacional e estabelece mecanismos de compensação para o setor. Zanini
aponta que grandes geradores de resíduos descartáveis como embalagens de
leite longa vida e pet não arcam com os custos do recolhimento do lixo,
que são recolhidos pela Prefeitura e catadores.
Fonte: Diário de Canoas |
 



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