Catadores de lixo reciclável ganham R$ 0,18 por quilo de papelão

Em princípio, trata-se de uma idéia lucrativa, inclusive do ponto de vista ecológico: a reciclagem reduz a quantidade de lixo, promove o reaproveitamento de materiais e ajuda na preservação da natureza.

“Adquirir o hábito de separar o lixo significa diminuir a poluição do ar, da água e do solo”, afirma o ambientalista Antônio São Pedro. No entanto, apesar de estar condizente com práticas urbanas menos nocivas, a estrutura de coleta dos produtos recicláveis não poderia ser mais ultrapassada. “Os catadores mexem diretamente no lixo sobre a calçada, sem proteção alguma.

As carroças são puxadas pela força humana e eles ainda estão sujeitos aos riscos do trânsito. Estamos na contramão do progresso, é lamentável”, revolta-se a socióloga Tássia Almeida.

De acordo com dados da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (LIMPURB), existem 24 cooperativas de reciclagem, com 700 pessoas cadastradas na capital baiana. No entanto, é fácil encontrar catadores sem ligação formal com cooperativas e denunciando episódios de violência praticados por agentes da própria Empresa, vinculada à Secretaria Municipal de Serviços Públicos. “Às vezes, o pessoal da LIMPURB, os garis, tentam bater na gente, dizem que estamos rasgando os lixos”, conta Reginaldo José da Silva, 46.

Os catadores Nelson de Santana Alves, 22, e Romilson Emídio de Santos, 33, também já enfrentaram agressões nas ruas soteropolitanas, mas praticada pelos moradores. De acordo com eles, nos finais de semana o risco aumenta, já que são obrigados a lidar com pessoas que saem de festas noturnas sob efeito de álcool ou drogas. Há até ameaças entre os próprios recicladores, durante disputas pelo controle das áreas de coleta. Moraes Pereira, 32, trabalha cerca de oito horas por dia na busca de produtos recicláveis, desde que fraturou três vértebras num acidente e perdeu o emprego formal, há dez anos. No contato direto com o lixo, já se cortou várias vezes com vidros, mas comemora nunca ter adquirido nenhuma doença séria, pelo que ele saiba. Ele faz o percurso Lapa-Barra diariamente, “enfrentando sol, chuva e, muitas vezes, a fome”, conta. A remuneração, entretanto, é incompatível com os riscos.

“Ganho em torno de R$10 a R$20, mas tem dia que não ganho nada, já passaram os outros (catadores) e levaram tudo, a gente tem que ser rápido”, afirma Pereira. Um reciclador ganha R$ 0,25 por cada quilo de ferro coletado, R$0,50 por quilo de garrafa pet, R$ 2,20 pelo de alumínio. O metal inoxidável é o artigo mais lucrativo: R$4 cada quilo. O papelão, o mais barato: R$ 0,18. Marivalda Santos, há 24 anos proprietária de um ferro velho no bairro do Comércio, justifica os preços: “O valor do quilo do material reciclável segue a tabela de mercado, que é estabelecida pelas empresas que compram o produto”. Mas para o catador Romilson dos Santos, o pior não é a remuneração obtida, nem a distância que ele percorre diariamente. Do que ele mais se ressente é da desconfiança da população em geral. “Já fui confundido com ladrão”, lembra com tristeza.


Fonte:  Eliezer Santos / Jordania Freitas / Tamirys Machado (Folha Salvador)