Lixo da era digital pode gerar lucros

Toneladas de discos rígidos, impressoras, aparelhos de fax e celulares avançam de hora em hora por uma esteira, caindo na boca aberta de uma máquina picotadora na e-Scrap Destruction, empresa de Islandia, no Estado de Nova York.

As lâminas de aço da máquina "mastigam" os componentes ruidosamente, reduzindo-os a fragmentos de menos de dez centímetros de comprimento. O material picotado volta para a esteira, onde um eletro-imã ao alto remove as partes que contêm ferro, enquanto os detritos avançam pela esteira.

Os detritos da era digital representam lucros para Trace Feinstein, que fundou a e-Scrap Destruction dois anos atrás. "Enxerguei a reciclagem de computadores como a próxima grande onda", disse Feinstein, 37, que antes administrava uma empresa de picotagem de papel. Não é fácil encontrar maneiras de dar cabo dos volumes crescentes de detritos de computadores e outras máquinas: estimados 133 mil computadores são descartados por famílias e empresas diariamente. Num relatório de 2006, a Associação Internacional de Recicladores Eletrônicos calculou que cerca de 400 milhões de pedaços de "e-detritos" vão para o lixo todos os anos. "É um problema enorme e crescente", disse Barbara Kyle, coordenadora nacional da Coalizão Electronics TakeBack, de San Francisco, grupo que promove a reciclagem de bens de consumo eletrônicos. "Pense em quantos aparelhos que você tem hoje e que não tinha há cinco anos. Estamos comprando mais e mais coisas que têm tempos de vida mais e mais curtos".

Segundo Trace Feinstein, cada vez mais empresas de reciclagem "desmontam os equipamentos manualmente, os enviam para o exterior e os vendem na eBay". Qualquer coisa que não tenha valor - o vidro dos monitores de computadores, por exemplo - muitas vezes acaba no aterro sanitário. Feinstein queria descartar os detritos de maneira mais responsável.

Primeiro, porém, ele tinha que mostrar que podia livrar-se dos detritos de maneira completa, para aliviar os receios dos clientes com relação a sua privacidade. Esse é um ponto crucial. Foi quando entrou em campo a máquina picotadora. Feinstein contratou a Allegheny Paper Shredders, da Pensilvânia, para construir por cerca de US$ 500 mil uma máquina capaz de fragmentar componentes eletrônicos.

"Não há como salvar dados disto aqui", disse ele, mexendo com uma pá em alguns materiais picotados.

Da e-Scrap, o material é enviado para a MaSeR (Seleção e Reciclagem de Materiais), uma firma canadense, onde é reduzido a seus componentes básicos - vidro, plástico, cobre e aço - que, então, são vendidos.

No final do processo de picotagem, os e-detritos são colocados em grandes contêineres para serem enviados a uma refinaria no Canadá, onde são moídos e pulverizados, sendo separados em seus componentes de base, muito low-tech. Esses materiais são então vendidos para a fabricação de outros produtos. Feinstein disse que a receita de sua empresa vem crescendo em 40% ao ano nos últimos dois anos, chegando a cerca de US$ 1,4 milhão.

De seis funcionários um ano atrás, a e-Scrap hoje tem dez. "Vamos ter que contratar mais pessoas e equipamentos", disse Feinstein. "Vou trabalhar mais, com toda certeza".


Fonte:  John Hanc (The New York Times / Folha de S.Paulo)