Crise econômica afeta as vendas dos catadores

Engana-se quem pensa que a tão falada crise financeira internacional em nada influi na produção de atividades populares, aqui em Fortaleza. Para se ter uma idéia, integrantes de associações e pesquisadores da área da reciclagem no Estado apontam que, diante do cenário, principalmente a venda do material reciclado tem sido prejudicada. A situação é agravada, ainda, pela chegada da chamada “pre-estação chuvosa”, que interfere na qualidade e, assim, no valor do produto.

A presidente da Rede de Catadores e Catadoras do Estado do Ceará, Maria Conceição da Silva Sousa, reconhece que “caíram os preços dos produtos e estão caindo a cada dia”. Segundo ela, todos os anos há, nesse período, uma desvalorização dos produtos reciclados na hora da venda. O problema é que dessa vez o valor diminuiu muito, também por conseqüência da redução na demanda por parte das empresas.

“Vendíamos a carrada com dois mil quilos de garrafas PET por R$ 0,50. Agora, está por R$ 0,35. A carrada de papelão, com mil quilos, custa R$ 0,05. Só vendi uma e ainda estou esperando o comprador vir pegar a outra carrada e não vem”.

Além do plástico, a presidente lista que o alumínio também está sendo vendido por R$ 1,00 a lata, quando o produto era comercializado por R$ 1,50. “Tem catador que está desistindo e indo atrás de outro emprego, porque as vendas estão ruins. As chuvas têm atrapalhado muito. Como os carrinhos não são cobertos, os produtos molham e a qualidade fica menor e o valor também”, diz.

De acordo com o diretor da Agência Reguladora de Fortaleza (Arfor), Humberto Júnior, especialista em resíduos sólidos, o que está acontecendo no Estado não está dissociado do que vem ocorrendo em qualquer outra parte do País.

Como disse o também professor da Universidade de Fortaleza (Unifor) e do Instituto Tecnológico do Ceará, “no Brasil inteiro há uma recessão do material reciclado e a crise alterou bastante os preços, pois diminuíram as vendas e o dólar disparou”, indica.

Segundo destacou o especialista, houve uma diminuição nas vendas. Tanto que a crise também atingiu o catador, que, como define, “é a ponta da economia”. Em sua avaliação, um dos materiais que mais sofreu queda na procura foi o papelão. Afinal, como acredita diretor da Arfor, quanto maior a variação da utilização do material reciclado, menos impacto terá na queda do valor do produto.

Isso porque, como compara, o papelão é somente usado para embalagem de produtos, enquanto que o plástico é utilizado na produção de garrafas, fios, camisas etc. E, nesta hora, o comprador procura o material com melhor qualidade e utilidade. “Quando os preços começam a cair, quem está comprando quer o produto melhor e com melhor preço”.

A estimativa, conforme o último estudo da Prefeitura, em 2006, é que existem oito mil catadores na Capital, sendo pelo menos 32 mil pessoas que dependem da atividade. Há uma coleta de 3,5 mil toneladas de resíduos que vão para o aterro por dia, chegando a 4% desse total a ser reciclado.

INCENTIVO

Políticas públicas como solução

Na opinião do diretor da Arfor, Humberto Júnior, e do diretor do Fórum Estadual de Lixo e Cidadania, Marcos Stênio Teixeira, uma das soluções para amenizar os impactos da crise na reciclagem seria se pensar a gestão de resíduos sólidos em Fortaleza.

Como criticou Humberto Júnior, “não há uma logística em relação à reciclagem”. Para ele, é necessário que o poder público, longe de oferecer uma ajuda paternalista, realize incentivos na área da indústria, na estrutura, nas parcerias, na orientação e na educação dos catadores, a fim de que eles tenham condições de melhorar a produtividade, além de evitar que sejam enganados.

“O catador tem de procurar melhorar seu produto”, comenta Marcos Stênio, que também é especialista em Gestão Ambiental e mestre em Engenharia de Produção. Para isso, ressalta, o poder público também pode contribuir ao promover um planejamento de capacitação dos trabalhadores, até mesmo para que eles encontrem formas de variação de renda.

Por outro lado, acrescenta Humberto Júnior, podiam ser criadas linhas de financiamento para os catadores, evitando que eles sejam dependentes dos chamados “sucateiros”. Além de, como citou, incentivar a criação de galpões de reciclagem, os quais sejam coordenados pelos próprios catadores. “A previsão é que três galpões sejam inaugurados pela Prefeitura ainda no início deste ano. Todos serão na Secretaria Regional V”, antecipa.

Por enquanto, lembra a presidente da Rede de Catadores do Estado, Maria Conceição da Silva, os moradores poderiam já contribuir com o trabalho dos catadores. Segundo ela, bastava que as pessoas separassem seu lixo para entregar aos trabalhadores.


Fonte:  Janine Maia (Diário do Nordeste)