A força poluidora do óleo de cozinha. O que fazer?
Toda vez que um litro de óleo de cozinha
é despejado pia abaixo contamina o volume de água suficiente para 14
anos de consumo de um ser humano. O efeito é mesmo devastador: afeta a
qualidade de um milhão de litros de água. Os números são consenso entre
pesquisadores, organizações não-governamentais (ONGs) e governo e
assustam, principalmente quando se pensa em uma sociedade como a
pernambucana, na qual a coleta seletiva do óleo de cozinha ainda é pouco
difundida e, menos ainda, praticada. Tanto que o produto representa
0,001% do total de material reciclável coletado mensalmente pela Empresa
de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) - o papel é o campeão,
equivalendo a 71%.
Aparentemente inofensiva, a prática de jogar o óleo na pia é danosa
tanto para o meio ambiente quanto para a infra-estrutura de escoamento
de uma cidade. O produto é capaz de formar uma camada na superfície das
águas, impedindo a oxigenação nela. "A flora e a fauna que se
desenvolvem dentro das águas tendem, então, a morrer", alerta o gerente
de coleta seletiva da Emlurb, André Penna. Além disso, pode
impermeabilizar solos, dificultando a penetração da água das chuvas e
provocando alagamentos.
Os danos começam logo após o descarte. O óleo pode formar uma espécie de
crosta dentro de canos e galerias pluviais durante a passagem. Assim,
essas estruturas podem ficar entupidas ou mesmo estourar. "Sabe aquela
sujeira preta freqüentemente encontrada nas proximidades de
restaurantes? Aquilo é óleo despejado em pia", ilustra Penna.
Para evitar tantos prejuízos por causa de um descarte inadequado de
material, o coordenador da Associação Meio Ambiente, Preservar e Educar
(Amape), Sérgio Nascimento, dá a dica. A pessoa deve deixar o óleo
pós-consumo esfriar por alguns minutos e, em seguida, despejá-lo com a
ajuda de um coador em uma garrafa PET ou em uma bombona. "Coar é
importante para diminuir a quantidade de resíduos orgânicos no óleo. Os
restos de comida diminuem a qualidade do óleo e as chances de ele ser
reutilizado", justificou. O recipiente pode ser então levado para um
ponto de coleta.
Localizada no bairro de Casa Amarela, na Zona Norte do Recife, a Amepe
recebe uma quantidade variável de óleo de cozinha por semana. "Às vezes,
conseguimos coletar 20 litros, mas tem semana em que chegam só dois",
lamentou Sérgio Nascimento. Segundo estimativa do coordenador, em média
10 pessoas vão ao local semanalmente para entregar óleo de cozinha -
normalmente são mulheres engajadas em causas ambientais e que residem
nas proximidades da Amepe. O óleo coletado é despejado em um dos dois
tonéis da ONG, cada um com capacidade para armazenar 100 litros, e
depois entregue a uma gestora de resíduos, que analisa a qualidade do
produto e repassa o material para indústrias ou produtores individuais.
A Amape recebe material reciclável de segunda a sexta-feira, das 7h às
17h, e aos sábados, das 7h às 12h.
Uma alternativa para os mais ocupados é pedir que os próprios
funcionários de pontos de coleta peguem o óleo armazenado na casa do
consumidor, prática que nem sempre é feita pelas entidades. A jornalista
Janayde Gonçalves, 24 anos, localizou recentemente uma ONG desse tipo, a
Bumerangue Reciclagem, localizada em Jardim Prazeres, em Jaboatão dos
Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Janayde morava em
Fortaleza, no Estado do Ceará, mas se mudou para o Recife em janeiro
deste ano, para cursar mestrado. Em Fortaleza, ela fazia a coleta
seletiva de óleo de cozinha, mas na nova cidade ainda não havia
encontrado local aonde levar o material armazenado. "Por falta de tempo
e por usar pouco o óleo em casa, acabei deixando o tempo passar.
Guardava em garrafinhas para não despejar na pia, mas acabava jogando no
lixo", afirmou. A Bumerangue Reciclagem pede que pelo menos um litro do
óleo seja armazenado antes de entregue.
Janayde ainda quer multiplicar a quantidade de pessoas ecologicamente
responsáveis na cidade. No condomínio onde mora, no bairro da Jaqueira,
na Zona Norte do Recife, recentemente começou a ser feita coleta
seletiva de materiais reutilizáveis, mas o óleo de cozinha não foi
incluído na lista. "Na próxima reunião dos condôminos, vou propor que
façamos também esse tipo de separação", prometeu.
Fonte: Tatiana Ferraz (JC OnLine) |
 



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