Europeus encaram um regime rigoroso de reciclagem de lixo
Os cidadãos de Whitehaven tentam, eles
realmente tentam. Separam suas latas, seu papel, seu papelão e seu vidro
e reciclam tudo. Eles pulam para cima e para baixo em seu lixo para
enfiá-lo nas latas de lixo fornecidas pelo governo e colocam o lixo para
fora para a coleta exatamente às sete horas, duas vezes por mês.
Mas, quando Gareth Corkhill, um motorista de ônibus, foi multado em US$
215 – e depois outra vez em US$ 225, além da ficha criminal que ganhou
quando deixou de pagar – por deixar sua lata de lixo levemente aberta,
os residentes de Whitehaven se uniram em consternação. Eles levantaram o
dinheiro para pagar a multa e começaram a reclamar.
“Considero a multa contra o senhor Corkhill uma questão de injustiça e,
como um pastor cristão, tenho a obrigação de me expressar contra a
injustiça”, disse o Reverendo John Bannister, pároco de Whitehaven, uma
cidade litorânea na região de Cúmbria. Referindo-se às latas de lixo
utilizadas aqui pelos residentes, ele disse, “Receber uma ficha criminal
por deixar a tampa de sua lata aberta em três polegadas, na minha
opinião, realmente extrapolou as fronteiras do aceitável”.
Por toda a Europa, moradores estão lutando para ajustar-se a uma nova
era de regras sobre o lixo. A Inglaterra, particularmente, está em meio
a uma crise do lixo, com a diminuição dos depósitos e um dos índices de
reciclagem mais baixos da Europa. Ameaçados com multas exorbitantes caso
joguem lixo demais, governos locais por todo o país estão impondo
rigorosos regimes para forçar os residentes a produzir menos e reciclar
mais.
Muitos agora coletam o lixo a cada duas semanas, em vez de semanalmente.
Eles limitam as residências a certa quantidade de lixo e se recusam a
pegar mais. Exigem que o lixo seja colocado para fora somente em
horários específicos, rejeitam caixas cheias de recicláveis que
contenham apenas um item não-reciclável e empregam oficiais de
fiscalização, que distribuem avisos e impõem multas aos que não cumprem
as normas.
Poucas pessoas questionam que, nesta era de recursos ambientais
limitados, é essencial que sociedades com muito lixo como a Inglaterra
mudem seus hábitos irresponsáveis. “Esta é uma época difícil para o meio
ambiente, e o Reino Unido está atrás no jogo quando o assunto é depender
de depósitos de lixo”, diz Beverley Parr, uma porta-voz do Departamento
de Assuntos de Meio Ambiente, Comida e Rurais. Ou como Ian Curwen,
porta-voz do Conselho de Copeland Borough, que abrange Whitehaven,
disse: “Como um país, temos de fazer mais. Não podemos apenas continuar
produzindo e jogando coisas fora”.
Mas os britânicos não gostam que lhes digam o que fazer. Encorajados por
jornais de oposição, eles ressentem a intromissão do governo em assuntos
tão íntimos quanto o conteúdo de suas latas de lixo. À medida que os
regulamentos ficam mais rigorosos e a fiscalização mais intensa, há
relatos pelo país de residentes enraivecidos gritando e jogando lixo nos
coletores, jogando ou queimando ilegalmente os excessos, e até mesmo
jogando lixo sorrateiramente nas latas dos vizinhos – ou as roubando.
“É como algo saído do filme ‘Mad Max’”, disse recentemente Paul Nicholls,
residente de Cannock, próximo a Birmingham, ao jornal "The Guardian",
descrevendo o pandemônio em sua cidade na hora da coleta de lixo. “Cada
um por si, lutando por uma lata extra”.
O governo diz que as novas regulamentações são necessárias se o país
quiser se ajustar aos novos tempos. Juntamente ao restante da Europa, a
Inglaterra foi ordenada a reduzir o refugo colocado em depósitos de lixo
– até 2015, em 50% do que era em 1995 – ou encarar incontáveis milhões
de dólares em multas da União Européia.
Isso significa que as pessoas têm de repensar completamente seu
relacionamento com os refugos, diz Paul Bettison, presidente da comissão
de meio ambiente na associação governamental local.
“É muito triste ter de arrasar as ilusões das pessoas, mas já foram os
dias em que podíamos colocar todo o nosso lixo em um grande saco e,
durante a noite, a fada viria e levaria tudo embora, e esse seria o fim
do problema,” diz Bettison. “A fada do refugo morreu”.
O regime de coleta quinzenal, adotado agora em mais de metade do país, é
particularmente impopular e se tornou um controverso assunto nas
recentes eleições locais, quando o Partido do Trabalho governante foi
trucidado por seus oponentes.
Entre outras coisas, diz Doretta Cocks, que dirige a Campanha pela
Coleta Semanal de Lixo com 22 mil membros, ter coletas muito espaçadas
cria um risco à saúde, com o cheiro, insetos e ratos.
“O processo foi criado para ser amigo do meio ambiente, mas não é”, diz
Cocks. “E como poderia ser, se temos que manter duas semanas de lixo em
nossas casas?”
Whitehaven oferece aos seus residentes um conjunto de latões de
reciclagem, além de latas com rodinhas regulamentadas pelo governo que
costumam ser modestas em tamanho, para dizer o mínimo, guardando talvez
quatro dos sacos de lixo pretos.
Dentro delas, espera-se que os moradores acumulem o equivalente a duas
semanas de lixo.
“Minha lixeira está sempre cheia”, diz um residente de Whitehaven de 62
anos, acrescentando conseguir forçar cinco sacos lá dentro se pular
sobre eles com força suficiente. Ele está engajado em uma batalha
corrente com os coletores de lixo. Certa vez ele colocou um saco de lixo
a mais sobre sua lata; eles se recusaram a pegá-lo e deixaram o lixo do
saco, agora rasgado, espalhado pela rua. Em outra ocasião, quando ele
não conseguiu fechar sua tampa corretamente, recebeu uma “nota
mal-educada dizendo que a lata estava sobrecarregada”, diz.
A nota foi complementada por um adesivo de vergonha afixado ao latão,
anunciando que ele estava violando as leis locais de lixo. O homem, que
falou sob condição de anonimato pelo temor de contrair as autoridades,
diz levar regularmente seu lixo extra para um terreno baldio e
queimá-lo.
Parr, porta-voz de Departamento de Meio Ambiente, diz que a Inglaterra
reciclou apenas 7% de seu lixo em 1997, contra 33% de agora. (mais de
60% de seu lixo acaba nos depósitos, comparado a 55% dos Estados Unidos
em 2006.) A Inglaterra está em vias de experimentar programas em que as
residências pagariam de acordo com a quantidade de lixo jogado fora,
assim como pagam pela quantidade de água ou eletricidade utilizada.
Em um dos cenários, seriam instalados microchips nos latões, permitindo
que os conselhos locais registrassem o peso ou volume de lixo por
residência. Embora tais latas já sejam usadas em outros países da
Europa, a mera probabilidade na Inglaterra já tem críticos resmungando
sobre o Grande Irmão e temendo as taxas.
Em Whitehaven, os residentes já estão incomodados o suficiente com as
regras já existentes.
'Polícia do lixo'
Claire Corkhill, cujo marido recebeu a multa pelo latão aberto, ainda se
recupera da vergonha de ter dois oficiais uniformizados da fiscalização
do lixo, ou “polícia do lixo,” como são conhecidos localmente, em sua
porta.
“Eles estavam usando coletes protetores,” disse ela, referindo-se a um
tipo de armadura. "Minha irmã é policial, então pensamos que se tratava
de uma brincadeira, pra falar a verdade".
Curwen, o porta-voz do conselho local, disse que os Corkhills deixaram
de responder a diversos avisos. “Eles receberam um adesivo, uma carta e
então outra carta dizendo, ‘Você gostaria que os visitássemos para
discutir a situação do seu lixo? Porque precisamos reduzir nossos
depósitos de lixo e as multas são bastante altas’”, disse.
Fonte: G1 |
 



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