Projeto da UEPB beneficia catadores de lixo de Campina Grande

Como uma instituição de ensino voltada, também, para as questões ambientais e sociais, a Universidade Estadual da Paraíba desenvolve um projeto de extensão com catadores de lixo da cidade de Campina Grande. Coordenado pela professora Jussara Carneiro, o projeto envolve alunos da UEPB que, semanalmente, se reúnem com os demais participantes, a fim de discutir formas de fortalecimento da cooperativa dos catadores e continuação da coleta seletiva solidária, principais objetivos do projeto.

Até o momento, os principais êxitos foram a retirada dos catadores do lixão, constituição da primeira experiência de coleta seletiva organizada do município e transformação do grupo em campo de estágio para alunos da Universidade. Quando surgiu, o projeto tinha apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que, numa atitude inédita, concedeu bolsas para um projeto de extensão e não de pesquisa, como é de praxe.

A parceria do projeto com o CNPq durou dois anos e se chamava "Transformar para incluir". A cooperativa participante foi a Cooperativa de catadores de materiais reciclados de Campina Grande (COTRAMARE). Neste meio tempo, o projeto conseguiu um galpão e carros de mão para serem usados na coleta. O galpão, localizado no centro da cidade, hoje serve como ponto de apoio para os catadores, além de guardar, prensar e pesar o material recolhido.

Após esse período, a estrutura organizacional da COTRAMARE passou por reformulações e cerca de 20 integrantes da cooperativa decidiram criar um novo empreendimento, surgindo daí a Cooperativa de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Campina Grande Ltda, CATAMAIS.

Albertina Félix, assistente social da UEPB e supervisora do campo de estágio do projeto, descreveu a diferença entre os catadores de lixão e os de rua. "Os catadores de lixão, em Campina Grande, trabalham, especificamente, no lixão do bairro Mutirão e tem somente esta atividade como meio de sobrevivência, na grande maioria das vezes. Catadores de rua, geralmente, têm mais de uma atividade e recolhem material em diversas ruas da cidade, lixeiros de empresas, casas, prédios, supermercados, entre outros".

Para a assistente social, a situação dos catadores de lixão é mais perigosa e degradante, justamente pelo meio em que trabalham. "No lixão do Mutirão, eles encontram todo tipo de material misturado, lixo seco e orgânico. Catadores já chegaram a encontrar até material hospitalar", disse Albertina.

Mas uma boa notícia é que, em conseqüência de suas ações, o projeto conseguiu tirar esses catadores do lixão e, agora, eles fazem a catação nas ruas. Entretanto, ainda mantêm sua importância social e ambiental, já que estão recolhendo o lixo e reaproveitando-o antes que este entupa bueiros ou polua o ambiente de modo geral.

Condição social

Os catadores de materiais recicláveis constituem um segmento social que tem crescido bastante nos últimos 50 anos, cuja maioria carrega um histórico de grave exclusão sócio-econômica, encontrando, na atividade de coleta de materiais, a única alternativa para sua sobrevivência e de suas famílias.

Esses trabalhadores desempenham papel fundamental do ponto de vista econômico e ambiental, uma vez que são responsáveis por até 90% do material que alimenta a indústria de reciclagem no Brasil, segundo dados do SEBRAE-SP (2003). Ainda assim, eles enfrentam grandes dificuldades para desenvolver suas atividades econômicas e, sobretudo, para serem reconhecidos profissional e socialmente.

Em Campina Grande, com uma população de quase 400 mil habitantes e uma geração de resíduos sólidos da ordem de 743g/dia por habitante, a situação para os catadores não é diferente. A exemplo do que acontece na maioria dos municípios que não possuem efetivas políticas públicas para a gestão de resíduos sólidos, como a coleta seletiva, também se verificam as mesmas dificuldades.

Interatividade ambiental, social e acadêmica

As reuniões semanais entre alunos, professores e catadores servem para fortalecer a cooperativa através de debates, apresentação de problemas, planejamento e desenvolvimento de atividades, além de discussões para se chegar a soluções. Alguns problemas enfrentados pelos catadores são de ordem financeira, com atravessadores de materiais, parceiros externos e o que mais for de interesse para a cooperativa.

A professora Jussara Carneiro destaca o apoio do atual reitorado e, em especial, o empenho pessoal da reitora Marlene Alves com relação ao projeto. Porém, o mesmo ainda necessita de apoio para uma ampliação e garantia que os proveitos conseguidos não venham a ser extintos.

Outro aspecto importante foi a comunidade local ter reconhecido o papel dos catadores na sociedade e a importância do trabalho que eles desenvolvem, gerando, assim, fortalecimento na auto-estima dos mesmos. Além disso, é fato destacável a mudança que a participação neste projeto provocou na vida dos alunos. Na execução das atividades, foi possível apreender a realidade de vida dos catadores de materiais recicláveis, as especificidades existentes entre aqueles que vivem no lixão municipal e os que catam nas ruas da cidade.


Fonte:  Paraiba.com.br