Porto Alegre tem o melhor índice de reciclagem do Brasil, mas ainda falta
informação
Porto Alegre foi a primeira capital
brasileira a implantar a coleta seletiva de lixo em 7 de julho de 1990.
Quando o primeiro caminhão do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU)
cruzou o Bom Fim num projeto piloto, quase ninguém sabia como separar
corretamente os resíduos. Nem que eles renderiam dinheiro e polêmicas.
Das 960 toneladas de lixo recolhidas diariamente, mais de 60 são
recicláveis. Parece pouco, mas é o melhor índice do país, representando
29% do material potencialmente reutilizável - a média brasileira é de
20%.
Considerada referência, a coleta seletiva da Capital é dos poucos
serviços que o DMLU ainda não repassou por completo à iniciativa
privada. Os 20 caminhões e os motoristas que trabalham no setor são
ligados ao órgão municipal. Já os garis, foram terceirizados.
São 14 unidades de triagem da Prefeitura e até o final do ano outras
duas serão inauguradas: uma no começo da Ramiro Barcelos, no bairro
Floresta, e outra na Lomba do Pinheiro. Os atuais 713 trabalhadores -
cooperativados - recebem entre R$ 450,00 e R$ 500,00 por mês.
Limite entre bairros confunde moradores
Na Ramiro Barcelos, está difícil determinar os dias da coleta seletiva.
“Separo inclusive plástico de papel. Mas desde que cheguei ao bairro, em
setembro de 2007, consegui entregar para o DMLU meia dúzia de vezes”,
reclama uma moradora do número 1561, bem na divisa entre Bom Fim e Rio
Branco.
Os vizinhos de porta também desconhecem a periodicidade da coleta
seletiva e nem mesmo os proprietários do mini-mercado em frente ao
edifício souberam informar corretamente. “O folder do DMLU diz terça e
sexta, alguns moradores falam que é sábado e quarta. Já coloquei em
todos os horários e, quando volto, o lixo está lá ou foi levado por
catadores, que deixam o que não querem pelo chão”.
O diretor de projetos sociais do DMLU, Jairo Armando dos Santos,
argumenta que a confusão é causada por se tratar de uma rua limite entre
dois bairros. “A Ramiro Barcelos é privilegiada por ser via de acesso
para diversas regiões. O caminhão passa várias vezes na semana”,
reconhece.
“O serviço funciona muito bem lá. O problema é muitas pessoas não sabem
em que bairro moram”, isenta-se, ao mostrar um elogio de uma moradora da
Cauduro, que parabenizava o órgão pela eficiência.
No entanto, a crítica se repete na Venâncio Aires. Gerente de uma
farmácia há quatro anos, Cláudio Renato desistiu da coleta seletiva. Ele
guarda todas as caixas de papelão e embalagens para uma catadora. “Em
cada semana, o DMLU passa num dia diferente”, denuncia.
Condomínios podem agendar coleta
Cansada de buscar informações através do telefone do órgão público, a
moradora da Ramiro perguntou diretamente a um gari sobre a freqüência.
“Nem ele sabia ao certo”, lamenta. A solução foi passar seu endereço ao
funcionário do DMLU, que desde então, por volta das 8h30 de sábado, bate
no interfone para buscar os recicláveis. “Como ele afirmou que não
recolhe da calçada nesse dia, sou obrigada a ficar em casa até ele
chegar”, admira-se.
Santos garante que a prática não é a usual. Segundo o diretor, o DMLU
cadastra apenas condomínios e não unidades individuais. “Fazemos isso há
um ano para evitar que o lixo seja colocado nas calçadas e estamos com
5.800 prédios agendados na cidade”, informa.
No Bom Fim, 155 edifícios participam desse sistema. O número 366 da
Felipe Camarão é um deles. Lá os 24 condôminos estão satisfeitos com o
trabalho da Prefeitura, que recolhe semanalmente todo o lixo do prédio.
O morador Natalio Segal, de 75 anos, só tem um reparo: “poderiam ter
mais calma, eles passam correndo, às vezes quase perdemos”.
Eficiência dos catadores convence
Sem a certeza das datas da coleta oficial, moradores e comerciantes
agendam dia certo com catadores ilegais. “Essa moça vem religiosamente
na hora marcada”, constata o gerente da farmácia da Venâncio. Moradora
da Vila Planetário, no bairro Santana, Solange, 27 anos, tem trajeto e
clientes definidos. As terças e quintas, ela recolhe de casas e
comércios da rua Venâncio Aires, Santa Teresinha e Jacinto Gomes. Nas
segundas, quartas e sextas a dedicação é exclusiva aos apartamentos da
João Telles e Tomaz Flores.
No final do dia, ela vende os materiais para um atravessador, que
repassa aos depósitos de reciclagem. A renda é sazonal, mas gira em
torno de R$ 100 por semana. Já Rodrigo, 22 anos, ainda não fidelizou os
clientes. Na atividade há seis meses, ele disputa os materiais com os
demais catadores e revira as sacolas atrás de garrafas plásticas. “O
papelão é pesado e vale menos”, revela o homem que consegue entre R$20,00
e R$ 30,00 por dia.
Todas as tardes ele percorre o bairro até o viaduto da Conceição. “No
fim do dia tem mais lixo e fica concorrido. Mas cada um tem o seu
horário”, observa.
Em busca da confiança de fornecedores fixos, Rodrigo faz questão de não
deixar resíduos na calçada quando tem que abrir as sacolas para ver se
há alguma coisa aproveitável. “O pessoal reclama que a gente mexe no
lixo, mas eles é que não separam”, indigna-se, ao fechar cuidadosamente
os sacos.
Há também quem entrega aos catadores por opção. “Sei os dias de coleta,
mas prefiro ajudar um senhor”, diz um comerciante. Dono de uma
tabacaria, Paulo Sanches também repassa diretamente os recicláveis.
“Isso gera renda para eles”, entende.
Fonte: Helen Lopes (Jornal Já) |
 



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