Reciclagem de lixo requer boa vontade dos cidadãos
Contribuir para a reciclagem de lixo é
tão simples quanto trocar de roupa, basta começar separando os
recicláveis dos não-recicláveis. Não é preciso ter um vasilhame para
cada tipo de resíduo. Todos os recicláveis podem ficar juntos, desde que
limpos, no caso de embalagens de alimentos e bebidas.
A situação só começa a se complicar na hora de descartar os resíduos.
Isso porque, em Salvador, o sistema de limpeza pública não faz coleta
seletiva, e, para dar a destinação certa ao material, o cidadão tem que
estar suficientemente motivado para levá-lo até uma lixeira adequada,
que nem sempre fica perto.
A prefeitura instalou os chamados pontos de entrega voluntária (PEVs) em
locais aleatórios e que não atendem a todos os bairros. Nem todos os
supermercados têm postos de coleta. As cooperativas de recicláveis
somente coletam em locais conveniados de acordo com a quantidade de
resíduos, por causa dos custos na hora de transportar o material. A
saída para quem mora em edifícios seria o envolvimento de todos os
moradores para que a quantidade atraísse as cooperativas.
Além de impor dificuldades para a prática de uma “boa ação” ambiental, a
falta de estrutura para a destinação dos recicláveis faz com que mais
dinheiro, desembolsado pelo cidadão em impostos, seja gasto para pagar
os serviços de coleta, transporte e aterro, que têm custo diretamente
proporcional à quantidade de lixo. Ou seja, quanto mais resíduos vão
para o aterro, mais será pago pela prefeitura. Hoje, o custo é de cerca
de R$ 70 por tonelada para uma produção diária de 2,5 mil toneladas.
Além dos recursos gastos a mais, que poderiam ser investidos em outras
necessidades públicas, gasta-se também mais recursos naturais para a
produção de mais embalagens. Assim, os aterros sanitários durarão menos
tempo, gerando mais custos ambientais e financeiros para a implantação
de novos espaços para o destino do lixo.
Lentidão – A sanitarista e professora do Departamento de Engenharia
Sanitária e Ambiental da Universidade Federal da Bahia Maria de Fátima
Nunes Maia, doutora em resíduos sólidos, desabafa sua decepção com o
ritmo das mudanças que espera há mais de 20 anos. “As coisas caminham
lento demais. Falamos as mesmas coisas há mais de 20 anos. Os orgânicos
são desperdiçados, não há apelo para as pessoas se engajarem na idéia da
reciclagem. Falta a prefeitura se comprometer mais e o cidadão ter mais
responsabilidade com o consumo”, desabafa.
Maria de Fátima completa: “podíamos ter avançado muito, com tantos
estudos já realizados, tantas experiências de ONGs. A gente espera mais
atitudes”. A seis meses do final de mais uma gestão municipal, ainda se
discutem os rumos da coleta seletiva na cidade. Até então, as medidas
mais visíveis da prefeitura, os chamados PEVs provaram ser de pouca
produtividade. A coordenadora técnica da Empresa de Limpeza Urbana de
Salvador (Limpurb), Fátima Sampaio, reconhece o problema e diz que os
PEVs estão sendo reavaliados.
Ela conta que a política do município é a de potencializar a coleta
seletiva através das cooperativas. “Só que as cooperativas não têm
estrutura, nem a população está estimulada”, diz. Ela conta que já
iniciou as discussões com os grupos sobre como ampliar esta ação.
Na cozinha – A estudante Maria José Villares Barral Villas Boas, 23
anos, começou a dar os primeiros passos para a reciclagem do lixo de
casa há dois anos. Hoje, exibe, com orgulho, as duas lixeiras da
cozinha, uma para plásticos, outra para papel. “No começo, foi difícil,
mas, agora, todos já estão participando”, conta. Se antes, somente ela
se encarregava de levar os recicláveis para os coletores, que ficam a
pelo menos um quilômetro de distância, agora os pais também colaboram,
conta Maria.
O próximo passo dela será o de convencer os outros moradores do
edifício, localizado no Corredor da Vitória, a fazerem o mesmo.
Cautelosa, ela optou por, primeiro, se fazer ouvir na comissão do
condomínio, candidatando-se e elegendo-se membro do conselho fiscal.
Única jovem entre os integrantes do condomínio, ela conta que está
“tomando coragem para fazer a proposta”. É que, como se trata de um
prédio de mais de 40 anos, predominam moradores mais velhos e que,
segundo ela, podem estranhar a idéia. “Se a gente se juntar, vai ficar
mais fácil trazer uma cooperativa para pegar os recicláveis”, acredita.
Fonte: Maiza de Andrade (A Tarde) |
 



|