Lixo deixado a céu aberto em 52 municípios do Estado

Enchentes, contaminação de lençóis freáticos, desmoronamentos, doenças infecciosas. Problemas diferentes, mas que têm no lixo um ponto em comum. No Espírito Santo o risco é maior em 52 municípios (65% do total) onde os resíduos sólidos não seguem a destinação adequada. Vão parar em terrenos baldios, lixões, áreas impróprias e sem condições para manter o material.

A constatação é do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Iema), que realizou um diagnóstico da situação dos resíduos no Estado entre os anos de 2005 e 2007.

"Nesse diagnóstico, identificamos claramente que os municípios não têm condições de dar respostas rapidamente a essa problemática da destinação final do lixo. Há problemas financeiros e também de gerenciamento da fiscalização. Muitos eram notificados, autuados pelo Iema, mas a ação não surtia efeito", disse a diretora-presidente do Iema, Sueli Tonini.

Atualmente, existem 102 lixões e pontos onde o lixo é depositado inadequadamente por força do hábito. Em média, um pessoa adulta produz entre 600g e 1kg de resíduos por dia.

"A produção da Grande Vitória representa 65% do lixo do Estado. Esse material, pelo menos, é depositado em aterros licenciados em Vila Velha, Cariacica e Aracruz", completou Sueli.

Gestão

No estudo do Iema, chegou-se à conclusão de que o poder público não é um bom gestor para a situação do lixo. Segundo Tonini, "investimentos foram feitos no passado em algumas áreas, mas na manutenção e na operação pelo poder público houve falhas, e os locais acabaram se tornando lixões".

O governo do Estado lançou, no início do ano, o projeto "Espírito Santo sem lixão", que prevê a criação de quatro Sistemas de Destinação Final Adequada de Resíduos Sólidos Urbanos regionais, a serem gerenciados pela iniciativa privada.

A idéia é eliminar os 102 lixões e pontos viciados de lixo no Estado e garantir a destinação adequada dos resíduos. Estão previstos investimentos de R$ 50 milhões até 2010 para a construção dos espaços.

Análise

"É uma questão de cidadania" - Paulo Dias Ferreira Júnior - Coordenador do Mestrado em Ecologia de Ecossistemas da UVV.

"A falta de fiscalização é evidente, apesar de uma legislação mais forte. Na maioria dos municípios, principalmente os de menor porte, isso fica mais claro. Podemos dizer que há um problema de educação formal da questão do lixo, sim, mas acho que deveríamos analisar a questão de uma forma mais ampla. Ou seja, falta também a educação para que se cobre dos poderes públicos a aplicabilidade da lei. Isso provoca uma situação em que, quem deixa de cobrar pela fiscalização, acaba contribuindo com a degradação, jogando fora a pilha que não serve mais e depositando os resíduos em locais inadequados. Talvez a melhor palavra para definir a questão seja cidadania. Cidadania sobre a maneira como a gente exige o que é de direito e sobre como a gente se comporta no dia-a-dia. Mas já temos percebido alguma mudança na sociedade com o surgimento de movimentos ambientais em maior número, que demonstram a mudança de comportamento. Penso que as crianças, os mais jovens, tenham melhores chances de promover as mudanças necessárias".

Aos montes

3280 toneladas - Esse é o volume de resíduos sólidos produzido diariamente no Espírito Santo, segundo o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema). Esse peso inclui o que entra nos aterros sanitários e as estimativas de quantidades nos lixões.

Eles tiram o sustento do lixo

Há quase 30 anos, jovem e sem emprego, Claudionor Paulo da Silva saiu da Bahia, com a esperança de uma vida melhor no Espírito Santo. Com poucas oportunidades de trabalho no Nordeste, deparou com situação parecida quando chegou ao Estado. Na época casado e pai de um rapaz, Claudionor viu a família aumentar e, com ela, as dificuldades.

Num terreno em Nova Rosa da Penha II, Cariacica, surgiu a oportunidade de mudar de vida com o aproveitamento de um produto cada vez mais volumoso: o lixo.

O sonho da juventude de melhorar de vida materializou-se de alguma forma, apesar de o dinheiro não ser muito. "As contas não deixam de ser pagas", garante. Claudionor conquistou uma casa para morar e hoje preside uma associação de famílias que dependem do lixo que é depositado na área que diz ser dono, às margens da Rodovia do Contorno, em Nova Rosa da Penha II.

Hoje, 43 famílias trabalham no local. Mas tudo indica que terão que arrumar outra forma de sustento. "As pessoas pararam de deixar o lixo aqui. Talvez porque ouviram dizer que é irregular, e isso prejudicou muito a gente", conta, apontando o que pode ser um reflexo da conscientização, principalmente de empresas, sobre o armazenamento de resíduos.

A área tem uma espécie de escritório montado em um barraco com sofá e cadeiras retirados do lixo. "Aqui, nós recebemos o material, pesamos e revendemos para o pessoal que recicla", completa Claudionor. Em média, dá para garantir um salário mínimo e meio por mês.

A prefeitura prometeu abrir um galpão para reciclagem no bairro, que será gerenciado em parceria com os trabalhadores da associação.

Gestão de resíduos vira aposta das empresas

Empresas especializadas em gerenciamento de resíduos passaram a agregar valor aos seus produtos usando o lixo. "Em 2006, firmamos um convênio com o Sebrae para estimular a criação de micro e pequenas empresas que desenvolvem alternativas voltadas para a reciclagem de resíduos", conta Cláudio Denícoli, diretor técnico da Marca Ambiental.

A cada dois anos, a empresa publica um edital com os critérios para as empresas participarem. Aos selecionados, a Marca Ambiental oferece o espaço físico para a instalação do projeto e a estrutura das áreas administrativas, de recursos humanos e contabilidade, sem custo para as empresas.

"Assim, agregamos valor aos nossos serviços, viabilizando os sonhos dessas pessoas em ter um negócio próprio e preservando o meio ambiente", explica Denícoli.

As microempresas que se instalam na área da empresa em Cariacica passam a compor o condomínio de Econegócios. Atualmente, estão em andamento negócios de vassouras PET; tijolos ecológicos; papel reciclado; fabricação de Grãos e Sacolas; produção de Biodiesel; reciclagem de Fibra de Coco; e produção de Tinta Ecológica.

Se, ao final de dois anos, a microempresa ainda não tiver recursos necessários para instalar o negócio de forma autônoma, a Marca Ambiental pode fazer um financiamento depois de avaliar a viabilidade.

Reciclagem: só 3% são aproveitados

Além de grande parte do lixo produzido no Estado não ter destinação final adequada, apenas 3% dos resíduos sólidos são encaminhados à reciclagem no Estado.

Em Vitória, pouco mais de 8 mil toneladas de lixo são coletadas por mês. Nesse volume estão incluídos todos os tipos de resíduos sólidos. Os números da reciclagem não chegam nem perto.

Por mês, são 90 toneladas de materiais recicláveis recolhidas por meio da coleta seletiva. Caso todo o lixo da Capital fosse separado adequadamente pela população, dividindo entre seco e úmido, o volume de apenas um dia de coleta de material reciclável poderia ser maior do que as atuais 90 toneladas ao mês.

A estimativa é de que, de todo o lixo produzido, 35% seja de material não-orgânico que poderia ser reciclado. Em Vila Velha, ainda não existe coleta seletiva de lixo doméstico. Todo o material coletado é destinado ao aterro sanitário. São 400 toneladas por dia.

O município mantém parceria com uma empresa privada para a coleta seletiva de óleo de cozinha em grandes geradores do material. O projeto de coleta seletiva doméstica no município está em fase de captação de recursos e ainda não há prazo definido para ser implantado.

"Agradeço tudo o que tenho primeiro a Deus e depois ao lixo. Do lixo, eu tirei e tiro todo o meu sustento. Foi como consegui criar meus quatro filhos, da mesma forma meus netos estão sendo criados", Claudionor Paulo da Silva, 54 anos, morador de Cariacica.


Fonte:  Geraldo Nascimento (A Gazeta)