Reciclagem e interacção levam jovem vencedora à Expo 2008

Na natureza nada se repete. Não há duas gotas de água iguais. Duas flores idênticas. Dois dias constantes. Dois beijos que seja. Nada neste infinito de possibilidades e conjugações se repete. Excepto no que toca a objectos, onde podemos transformar acrilonitrila butadieno estireno - leia-se plástico - num banco multifuncional, como fez Soraia Abreu.

Soraia não é uma jovem estudante convencida de que o primeiro prémio conquistado no concurso de Design de Mobiliário com Materiais Reciclados, promovido pela Caixa Geral de Depósitos, lhe vai escancarar o mundo. Pelo contrário, esta designer de 21 anos, nascida em Braga e emprestada a Barcelos como aluna do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), na sua humildade, tem esperança de que o facto de vencer este concurso signifique "um abrir de portas" para o seu futuro, como disse ao DN gente.

Sob o tema da reciclagem, impulsionada pelo professor Álvaro Sampaio, aprendeu o gosto de renovar a pureza ou talvez afastar o lado corrompido da sociedade de consumo. Assim nasceu o banco-contentor multifuncional, que já lhe garantiu a presença entre os melhores do mundo no certame internacional de ecodesign Remade in Italy, realizado em Milão, integrado no circuito do Remade in Portugal.

O projecto começou a nível académico. Foi proposto aos alunos o concurso que se enquadrava no âmbito da disciplina de Ecodesign. A ideia original de Soraia era desenvolver o conceito de um banco que se tornasse numa cadeira que por sua vez poderia transformar-se em sofá. "Queria uma peça que tivesse várias funções", mas a dificuldade na concretização da ideia remeteu-a para a simplificação do projecto num banco para adulto que se reduz para criança com compartimentos que podem servir de contentores. "Uma coisa não precisa de ser estática. É importante interagir com o produto, modificar o formato, a disposição das cores. O produto ganha muito mais", sublinha. O Ecofavo - como se designa o projecto da finalista do curso de Design Industrial - rendeu-lhe nove mil euros e o registo da peça. Ainda não pensou o que fazer com o dinheiro. "Talvez vá tirar um mestrado ou trabalhar..." Logo se verá. Agora, os planos a curto prazo da jovem passam por aperfeiçoar o inglês e depois seguir o seu maior sonho, estagiar no Royal College of Art, em Londres, que tem como director o designer que mais admira, o israelita Ron Arad. Tal como ele, "os novos criadores desenham tudo. O mesmo designer pode desenhar candeeiros ou roupa", garante.

Muito feliz com o prémio - especialmente porque foi escolhida entre 120 participantes, incluindo arquitectos - Soraia sabe que o seu caminho é o de "inovar e apresentar novos conceitos", agora se é cerâmica, iluminação ou mobiliário não tem certezas. "Vou optar pelo mobiliário mas se tiver outras oportunidades porque não?"

Fora do instituto descontrai nas danças de salão ou no ballet, e ainda a ver televisão, passear ou no cinema, hobbies essenciais na sua actividade criadora. "Não tenho inspiração dentro de casa. Acho importante para o design a comunicação, ver jornais, revistas, televisão". Quanto ao trabalho que mais prazer lhe deu, escolhe o water spider, um stand de exposição para feiras.

Quase na recta final dos estudos, diz-se disposta a trabalhar em qualquer ponto do País. "Tenho um cordão umbilical, mas a mudança é possível", garante. Para já, seguem-se várias exposições, estando assegurada a presença do projecto no Pavilhão de Portugal na Exposição Mundial de Saragoça, em Espanha, no próximo mês de Julho.


Fonte:  Paula Mourato (Diário de Notícias)