Na pele de um carroceiro
Adquirir uma carroça em São Paulo por si
só é uma experiência. Por indicação de um carroceiro que abordei nas
ruas do centro, um negro alto, forte e sem os dentes da frente, vou
comprar a minha em um tal de Alemão, um dos melhores fabricantes,
segundo fama conquistada no boca-a-boca.
A "loja" do Alemão fica escondida sob uma ponte, no Bom Retiro. Lugar
escuro, vizinho a uma pequena favela cortada por trilhos. Um sinal
intermitente avisa a aproximação de um trem que só passa de meia em meia
hora.
Um carroceiro cruza os trilhos e pára diante de um portão velho, onde
grita: "Alemão, Alemão!" O portão se abre, descortinando sucatas e
restos de carros alegóricos espalhados por um terreno amplo coberto pela
ponte.
Alemão é um homem com cerca de 1,65 m, branco, cabelos claros, barba
cerrada, roupas encardidas. "Você vende carroça?", pergunto. "Vendo.
Entra aí", convida.
Uma boa carroça ali custa R$ 250. Em geral, a encomenda leva de três a
quatro dias para ficar pronta. Por sorte, um carroceiro havia feito o
pedido, mas não apareceu para buscar o produto, um conjunto de ferro que
pesa 90 kg. "Fico com ela", digo.
Um outro carroceiro aparece tão logo empunho o carrinho. "Tá
começando?", ele questiona. Digo que sim e aproveito para pedir dicas.
Onde poderia vender papelão? Ele diz que costuma ir a um lugar próximo à
sede da escola de samba Camisa Verde e Branco, na Barra Funda. "E para
dormir?" No albergue Dom Bosco, no Bom Retiro. "Lá tem até chuveiro com
água quente", completa.
Na semana seguinte, esses dois lugares funcionarão como os principais
pontos das minhas idas e vindas com aquela carroça pelas ladeiras e ruas
congestionadas de São Paulo, disputando espaço com seus 3,5 milhões de
veículos.
A caracterização
Passo alguns dias observando o trabalho dos carroceiros. Não há padrão,
a não ser o da pobreza. Vejo trabalhadores de bermuda tactel, jeans ou
moletom. De boné ou sem. Chinelo ou tênis. Camisas com motivos
tropicais, xadrez ou lisas, camisetas de algodão brancas e coloridas.
Alguns vão de peito nu.
Do meu guarda-roupa, vou selecionando possíveis "uniformes" em um saco
de náilon, comprado na feira por R$ 3. Jogo lá dentro um saquinho com
escova de dente, creme dental, sabonete e desodorante. Em outro saco,
uma câmera, equipamento para medir os batimentos cardíacos, celular,
cuecas, meias. Visto uma calça jeans rasgada e uma camiseta com dois
furos. Estou pronto.
Vou para a porta do albergue Dom Bosco às 8h da terça-feira, dia 8 de
abril, sem a carroça. Espero, do lado de fora, até as 13h30 para falar
com a assistente social. Ela dá as caras, acompanhada de um segurança.
Diz que só há vaga para carroceiros. "Minha carroça está em outro
lugar", esclareço. Sou convidado a entrar.
A assistente estranha o fato de eu ter "boa aparência", apesar da barba
crescida e da camiseta encardida. Para conseguir minha vaga, respondo a
várias perguntas. Como soube do albergue? Há quanto tempo estou em
situação de rua? Onde meus pais moram? Não poderia ficar na casa de
amigo? Bebo ou uso drogas?
Sou aceito depois de meia hora de conversa. Estou agora bem próximo de
um grupo que, segundo pesquisa da prefeitura, de 2005, é formado por
homens (90%), com idades entre 41 e 55 anos (48%).
O Albergue
Ainda desconfiada, a assistente inicia uma breve explicação sobre a
rotina no abrigo. É um lugar onde vivem cerca de 50 pessoas, a maioria
homens, mas também mulheres e crianças. Alguns conselhos são repetidos:
"Estamos oferecendo uma facilidade. Não é para se acomodar, se tornar
dependente dessa oferta"; "É importante manter coisas de valor trancadas
no armário. Não deixe nada espalhado nem no banheiro"; "Não chegue
bêbado nem alterado por drogas. Não chegue após as 22h, a não ser que
tenha autorização". Por último, o aviso: "Não damos refeições".
A conversa prossegue albergue adentro. Um galpão com uns 10 m de frente
por 40 m de fundos. Um pequeno jardim, ao ar livre, dá mais vida à parte
da frente. Nos fundos, ficam os banheiros, a cozinha e a lavanderia.
O chão é de cimento; o teto, de telhas de amianto. Em toda a extensão do
salão, mais de 20 pares de camas com armários de madeira, de cada lado,
formam dois conjuntos espelhados. Entre uma cama e outra, meio metro.
Sobre os armários, o toque pessoal de cada carroceiro: coleções de
brinquedo, caixas de remédio, produtos de higiene. Como se a decoração
de um lar coubesse toda ali. Em frente às camas, ficam estacionadas as
carroças.
Paramos em frente ao espaço onde vou passar as próximas três noites: uma
cama de colchão nu e um armário vazio. Momentos depois, sou liberado da
conversa para, enfim, buscar minha carroça, que está a dez quadras. O
trajeto serve para entender o funcionamento dos freios (dois pedaços de
pneus pregados às hastes traseiras).
De volta ao albergue, a primeira providência é arrumar a cama, com
lençóis trazidos pela assistente. Ela avisa que, durante a semana,
grupos de alberguistas se revezam na limpeza. A escala fica pregada em
um mural.
Dentro do armário, que deveria estar vazio, há um bilhete de loteria.
Alguém sem sorte esqueceu por ali.
Pouco depois das 18h, uma televisão, suspensa em uma das laterais, é
ligada. Alguns carroceiros ajeitam o lixo recolhido de suas carroças,
enquanto assistem à novela. Outros já têm em mãos toalha e sabonete para
o banho.
Para usar o banheiro, é preciso retirar uma chave com o vigilante. Para
os homens, há quatro cabines no fundo do galpão: limpas, azulejadas, com
vaso sanitário e pia brancos e uma parede delimitando a área de banho.
Dá para se trancar e ter privacidade. A água é quente e bem servida. Mas
só funciona em horários predeterminados. Até a das torneiras, em vários
momentos, é desligada. Lavar roupa, só às quartas. A conta de água,
pregada no mural, aponta o valor de R$ 2.050 (o local é bancado por uma
parceria entre a Prefeitura e os salesianos).
Às 22h, as luzes se apagam. Uma gravação de quase meia hora com
repetições do "Pai Nosso", da "Ave Maria" e de outras orações sinaliza a
hora de dormir. No escuro, o silêncio é quebrado pelo choro de uma
criança, pelo trem que passa ao lado e por roncos. Ainda há o zumbido
dos pernilongos. Ao meu lado, um senhor usa o cobertor até a cabeça para
se proteger de suas picadas.
Segundo dia
Na manhã seguinte, somos despertados às 6h pelas mesmas orações. Há fila
nos banheiros. Deixo o albergue às 7h30.
Meu roteiro matinal passa pelos bairros de Higienópolis, Cerqueira César
e Pinheiros. Subir a avenida Angélica nem é tão difícil, pois a carroça
está vazia. Vou observando lixeiras e caçambas. Há pouco material. Vejo
outros carroceiros passarem com papelões assentados sobre o fundo de
suas carroças. Sou um concorrente, mas muitos me cumprimentam com um
aceno de mão. Sinal de boas-vindas de gente que sente na pele o que é
rodar, sob sol ou chuva, pilotando quilômetros sobre duas rodas e duas
pernas.
É hora de batalhar por mercadoria: arrisco pedir caixas em
supermercados. Mas todos já têm acordos com carroceiros. É assim que
meus "companheiros" vão delimitando o território e garantindo o pão de
cada dia. Chego à avenida Dr. Arnaldo todo suado, com não mais do que
cinco ou seis caixas encontradas ao acaso.
Em seguida, passo pelo meu primeiro desafio. Para entrar na rua Cardeal
Arcoverde, sou obrigado a pegar as faixas da esquerda da avenida Dr.
Arnaldo, enfrentando várias filas de automóveis. Para minha surpresa,
ninguém buzina. Os motoristas parecem acostumados.
É bom acelerar o passo - não é nada confortável andar calmamente numa
avenida tão movimentada. Ganhar velocidade também pode ser perigoso.
Quando a descida da rua Cardeal Arcoverde principia sob as rodas, fica
difícil frear. As aflições crescem quando um motociclista tenta
ultrapassar um ônibus bem ao meu lado.
Passado o primeiro sufoco, uma gratificação: homens descarregando
produtos de um caminhão, em um supermercado, deixam um rastro de papelão
debaixo da carroceria. "Posso pegar?", arrisco. O motorista diz que sim,
e eu faço meu primeiro carregamento de peso. Ainda assim, a carroça está
a meia-carga.
Sigo, com uns 10 kg a mais nas costas. Meu destino é a rua Oscar Freire,
nos Jardins. Lá começo a ziguezaguear pelas ruas e alamedas repletas de
lojas chiques. Mais papelão, aos poucos, vai inflando meu carregamento.
Mas sinto que o dia está longe de render o mínimo para a subsistência de
um homem adulto.
Os tais pontos fixos citados pelos carroceiros são fundamentais. Os
acordos são fechados com lojistas, padarias e supermercados. Escritórios
doam papel. É bom ficar de olho em obras, para pegar ferro dos entulhos.
Sem esquema, é preciso sorte. Na alameda Lorena, o segurança de uma loja
de roupa assobia para me oferecer uma carga. Da garagem da loja, puxa
uma Kombi repleta. Simpático e solícito, ajuda na transferência do
papelão para a carroça, enquanto conta sobre o seu passado no Nordeste.
Até que uma mulher aparece à porta da loja.
Travam uma conversa rápida. Continuo ajeitando o papelão, amarrando-o
com cordas à carroça. O segurança vem até mim e diz: "Vai embora, antes
que ela dê cria".
Tento ser rápido, mas a bagagem está transbordando. Passo a caminhar com
50 kg nas costas, sem contar o próprio peso da estrutura. Nem é tanto,
se comparado ao relato de um senhor, que diz ter puxado até 500 kg entre
as estações Luz e Armênia do metrô.
A passos muito mais lentos, planejo um bom caminho para chegar ao bairro
de Pinheiros, onde vou vender meu carregamento. Em vários momentos, o
batimento cardíaco fica acelerado, chegando a 178 por minuto. Pequenas
subidas se tornam penosas. O cheiro de resquícios de lixo e suor começa
a se acentuar. Descanso na praça Benedito Calixto.
Depois de uma hora de caminhada, chego, enfim, à porta do sucateiro. São
13h30 e há uma fila de quatro carroças. Funcionários empilham lixo
reciclável de vários tipos, e um rottweiler furioso late preso em um
canil. À sombra dos beirais de uma pequena casa, o chefe calcula o peso
de cada carregamento.
Uma carroceira chega, coloca seu material na balança e espera o
resultado. "Deu R$ 11", diz o homem de camisa para um senhora, de uns 60
anos, que trouxe uma sacola cheia de latinhas amassadas. Ela retruca:
"Espera um pouco, ainda tem meu papelão".
Chega a minha vez. Vou empilhando todo aquele material com dificuldade.
Consegui reunir quase 45 kg, mas calculo que mais de 5 kg tenham sido
desperdiçados pelo chão da sucataria, na pressa imposta pelos
funcionários.
Saio com R$ 7,20, o resultado de quase seis horas de trabalho. O ganho
diário médio de um carroceiro, segundo pesquisa da prefeitura, é de R$ 6
a R$ 15. Mas eu esperava ganhar bem mais, uma vez que o quilo do papelão
é cotado a cerca de R$ 0,40 no mercado da capital. Descubro que, ali, o
quilo vale R$ 0,16. O sucateiro ganha mais do que o dobro desse valor
com a revenda.
Almoço
Tal frustração tempera o almoço em um boteco na rua Fradique Coutinho,
com pratos a R$ 6,50, que correspondem a 90,2% da minha renda retirada
do lixo. Tem feijoada, o prato do dia. Peço água da torneira, faço a
refeição e volto à rua indisposto e fisicamente esgotado. O estômago
está pesado, o corpo e a roupa, sujos. Sento em um degrau e espero uma
hora até o mal-estar passar.
Reúno forças para o trajeto que seria um dos mais difíceis dessa
jornada: a íngreme subida da rua Teodoro Sampaio, no caminho de volta
para o albergue.
São 15h40 quando começo a longa ladeira até a avenida Dr. Arnaldo, onde
os motoristas não parecem nada pacientes. Não bastasse o peso da
carroça, a fumaça vem de todos os lados. Os olhos começam a arder muito.
Meia hora depois, já no topo do percurso, a oferta de um rapaz me soa
como piada: ele quer me doar um sofá de dois lugares, com dois furos,
segundo ele próprio. O esgotamento físico me impede de aceitar, mas
agradeço.
Na descida até o Bom Retiro, começa a chover forte. A chuva traz certo
alívio. Ameniza o calor. A cortina d'água parece barrar a poluição dos
escapamentos. O sol volta a dar as caras no fim da rua Consolação. Chego
à beira da cama exausto às 18h30, depois de percorrer 17,4 km. Sinto
muita dor nas pernas, sobretudo no joelho.
O cigarro
Cumpro o ritual: deixar a carroça em frente à cama, banho, comida,
televisão. Até me dar conta de um universo à parte. O jardim do albergue
se transforma em sala de estar, freqüentada pelos fumantes.
O diálogo é descontraído. Dois senhores sentados, fumando. Um deles, com
uma revista feminina no colo, pensa alto: "Revista Cláudia de agosto...
Será que é agosto que já passou ou agosto que vem?" Um silêncio dá a
deixa para eu entrar na conversa. Segue um papo sobre materiais
recicláveis e dinheiro. Depois, o assunto é "balada". Um dos senhores
cita a "casa Meia Nove". Um prostíbulo, possivelmente. Falam sobre "os
nóias", se referindo aos usuários de crack da região. Até que o senhor
que está lendo a revista resolve avaliar suas experiências dentro do
albergue. "Quem se acomoda, se ferra".
Ele já foi mandado embora uma vez: "Chegava bêbado. O segurança não me
deixava entrar. Daí eu falava pra mim mesmo 'então, vou tomar mais
uma'". Hoje, ele dá razão à assistente, a quem chama de "psicóliga":
"Ela toma decisões que ajudam a gente". Apago o cigarro e vou dormir.
Noite quente, com muito mosquito.
Terceiro dia
Levantar não é difícil. Mas as dores no joelho persistem. Ao acordar,
sou convidado a participar de uma reunião com outros 30 colegas. A
administração do albergue está tentando organizar uma cooperativa. Saio
às ruas por volta das 10h com a intenção de fazer um trajeto mais ameno,
uma atitude prudente, já que meu corpo não está preparado para uma
função que a priori seria de um cavalo.
Só que quase todos os caminhos levam para alguma ladeira. Dou uma volta
pelos calçadões nos arredores do Teatro Municipal, depois o viaduto do
Chá, o largo São Francisco e, finalmente, a avenida Brigadeiro Luís
Antônio. Sinto que o corpo está mais acostumado. Agora, o trânsito não
assusta tanto. Quando buzinam, o negócio é ignorar o motorista e tocar
em frente.
Atravesso a avenida Paulista, pego a alameda Santos e sigo para a Vila
Mariana, onde continuo recolhendo papelão. Dia fraco, consigo meio
carrinho. Não é o suficiente para ir até o sucateiro. Resolvo levar o
material ao albergue, para vendê-lo no dia seguinte. Na volta, mais
chuva. Depois, sol. No caminho, um flagrante: um ladrão de carros não se
intimida com minha presença. Na São Carlos do Pinhal, ele circula por
entre carros estacionados. A menos de 10 m, percebo que estava forçando
o porta-malas. O sujeito me vê, mas não interrompe a ação.
Percorro 15,1 km no total. Volto ao albergue às 18h. Ajeito a carroça,
banho, TV e, agora, já incorporado à rotina, cigarros e confissões. Um
colega vem dizer que leva foice e facas dentro da carroça para se
defender dos roubos, freqüentes na região. Já foi parado pela polícia,
acabou em cana. Foi viciado em crack, diz não ser mais. O irmão é
traficante, o pai era caminhoneiro.
Uma outra carroceira vem falar dos filhos pequenos e de sua carroça que
foi roubada. Conta que tem permissão para continuar no albergue apenas
pela condição de ser mãe. Já teve de dormir na rua com "os dois
meninos". Tem marcas de queimadura pelo corpo. Quem também aparece é um
jovem, de uns 30 anos, que se destaca no galpão por ter a maior carroça:
leva nas costas diariamente um trambolho de 4 m de extensão. Diz que
clientes fixos lhe doam material. Chega a fazer R$ 40 por dia, cinco
vezes mais do que eu.
Outra carroceira se aproxima. Usa fone de ouvido plugado a um tocador de
MP3. Depois, um jovem negro, ex-presidiário, diz que acompanha um amigo
carroceiro na falta de uma carroça própria. Reclama que toma batida da
polícia quase toda semana. "Matei? Sim, matei. Mas tô limpo há muito
tempo. Já cumpri o que tinha de cumprir e quero recomeçar do zero".
Um breve papo com o senhor que dorme na cama vizinha fecha a noite.
Homem mais velho, reservado, bem magro, de olhos claros, com aparência
de mais de 65 anos. Antes de dormir, deixa os sapatos sempre no mesmo
lugar. Suas roupas são muito bem organizadas e limpas. Tem uma carroça
larga que foi construída por ele mesmo. "Mas tá muito velha", avalia.
"Quando vou almoçar, deixo largada, sem corrente, ninguém leva".
Começou "nessa vida" há 30 anos e diz que, agora, a concorrência não dá
trégua. Não consegue pegar tanto peso quanto antes. Faz parte de um
grupo numeroso dentro do abrigo: o dos que estão envelhecendo. Naquela
quinta, um "nóia" veio pedir papelão para fazer uma cama improvisada. "E
eu vou dar papelão pra noinha?", resmunga. Depois, ele se vira e dorme.
Faço o mesmo.
Último dia
No dia seguinte, pego a carroça às 7h30. Tenho planos de conseguir
encher o carrinho até a boca e vender o carregamento no sucateiro da
Barra Funda. O grande obstáculo imposto pela viagem é passar pelos
viadutos que fazem a transposição sobre os trilhos da CPTM. São cenários
de atropelamentos, segundo contam vários carroceiros.
Antes, consigo juntar mais papelão em Higienópolis. A carroça volta a
ficar pesada quando passo por uma padaria. Dando uma de esperto, o
gerente se livra de caixas de ovos estragados. Só percebo mais tarde por
conta do cheiro. Sou obrigado a parar na primeira lixeira para jogar
fora os ovos. O odor permanece.
O ponto mais crítico se aproximava: o viaduto que liga as avenidas
Pacaembu e Marquês de São Vicente. Espero o sinal abrir rente à faixa de
pedestres com um frio na barriga. Arranco com a carroça, procurando ser
veloz e cuidadoso, mas não ultrapasso os 10 km/h.
Além da alta velocidade dos carros, existe um ponto logo depois do topo
do viaduto, no começo da descida, em que o carroceiro entra numa zona
cega. O motorista que ainda está na parte em aclive não consegue vê-lo
bem. Os carros desviam muito próximos. O mesmo acontece em passagens
escuras, sob pontes e túneis.
Tanto o risco para os motoristas quanto para os carroceiros poderiam ser
evitados se houvesse regulamentação no código de trânsito. Segundo a
Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) não existe estudo ou
levantamento que possa apontar possíveis prejuízos causados ao trânsito
em razão da circulação de carroceiros na cidade.
Nessa terra de ninguém, chego incólume à Barra Funda para vender ao
sucateiro outros 40 kg de papelão, resultado de dois dias de
peregrinação. Quem me recebe é uma mulher: R$ 6,40 vão para o meu bolso,
para cobrir as despesas de mais um almoço. De novo, só consigo R$ 0,16
por quilo. O atravessador vai revendê-lo por R$ 0,40, uma margem de
lucro de 150%.
Estou nos momentos finais da reportagem. Ando mais tranqüilamente pelas
ruas do Bom Retiro e, no caminho, vou encontrando vários outros
carroceiros. Todos erguem a mão, me cumprimentando. Retribuo, mais como
um adeus do que como um aceno.
Volto às 16h para o albergue para pegar minhas coisas. Passo quase uma
hora batendo papo com um segurança. Ele conta que é um período de
tranqüilidade no albergue. Já houve casos de briga e alberguistas
chegando "alterados". Entrego a chave do armário junto com os lençóis.
Alguns dos que passam por lá nem isso fazem. Simplesmente desaparecem.
É o momento de me despedir do personagem carroceiro. Deixo a carroça
numa garagem, após percorrer 16,7 km. Somadas as andanças dos três dias
de trabalho, percorri exatos 49,2 km. Desta experiência fica este
relato, um testemunho de quem sobreviveu a 72 horas na pele de um
homem-cavalo. Um trabalho movido a suor e esperança, em meio ao lixo e
ao asfalto, contando com a camaradagem de homens e mulheres que me
receberam como um igual.
Minha vida como excluído
"Foi de barba cerrada e roupas puídas que deixei minha casa por quatro
dias para realizar esta reportagem. Com outra roupagem que não a de um
carroceiro, a distância entre os dois mundos permaneceria inabalada.
O objetivo era me aproximar daquele universo para colher histórias e
retratar com fidelidade tal rotina. Por isso, no albergue e nas ruas
sempre me identifiquei como Gustavo, mas não como jornalista. Em nome da
confiança, as identidades dos personagens foram todas preservadas.
Afinal, as pessoas com quem convivi falavam com um colega e não com um
repórter.
Foi somente me misturando a eles que pude ver, ouvir e sentir: mexer no
lixo alheio pega fundo na auto-estima, principalmente quando sobe um
cheiro de dejetos. Mesmo que, no terceiro dia, eu tenha experimentado a
chance de me habituar ao serviço.
Tornar-se um trambolho atrapalhando as vias também é questão de costume.
A polícia passou fazendo piada, ou humilhando, não sei direito. Ignorar
o mundo que te ignora é o melhor a ser feito. Ou sua única chance, no
momento. Que buzinassem alto.
Vários carroceiros dizem que estão no ramo por opção. Dá dinheiro e não
há chefia. Posso atestar o prazer de navegar sem bússola, mesmo nos dias
em que o mar não está para peixe. E há várias outras coisas
gratificantes costurando a malha que os envolve. Mas a palavra 'opção'
eu recusaria.
Principalmente porque deu raiva do sucateiro que comprou meu dia de
trabalho por míseros R$ 7. Também quis vomitar na mulher que pediu para
um segurança me tocar da porta da sua loja chique. Justo eu, que ia
carregar seu lixo para longe dali.
E um amigo distante, desavisado, ao me ver puxando uma carroça, teve de
ouvir do namorado, 'Você conhece o cara da carroça?'.
Sentir-se excluído e provar dessa amargura talvez seja o ponto mais alto
que cheguei na tentativa de ser um carroceiro. Pois, nem ao ouvir o trem
passar à beira do albergue, durante a noite, dormindo ao lado de vários
deles, consegui me igualar a quem reúne tanta força para deslocar a
própria vida em busca de uma existência minimamente digna".
Um esforço sobre-humano
"De uma maneira geral, não é aconselhável que uma pessoa carregue mais
do que 10% de seu próprio peso. Um homem de 80 kg poderia levar consigo
cerca de 8kg. Claro que uma carroça, no plano, muitas vezes não
representa o peso da carga que está sendo puxada. A força maior é feita
no arranque, e uma força menor é exigida para manter o movimento.
É em subidas que o peso se torna um problema maior. O carroceiro, ali,
tem que dosar o carregamento de acordo com seu condicionamento, fazendo
paradas conforme seu próprio preparo. Com pico de 178 batimentos
cardíacos por minuto, o repórter, que tem 30 anos, chegou perto de
atingir o máximo da capacidade de seu coração, estimada em 190
batimentos por minuto. Isso pode deixá-lo extenuado.
Assim, é aconselhável que o carroceiro realize um trabalho de
resistência, andando devagar para ir longe. Numa comparação com
maratonistas, são os mais velhos que geralmente têm melhor performance,
pois, com a experiência, aprendem a dosar o gasto de energia.
Inflamação dos tendões e das articulações são problemas possíveis para
quem se submete a esse tipo de esforço físico, que utiliza muita força.
Dietas com balanço calórico negativo, somadas ao esforço e ao estresse,
também podem resultar em cansaço, insônia, depressão do sistema
imunológico, entre outros problemas.
A longo prazo, se submetido constantemente à poluição, o carroceiro
também pode sofrer de doenças pulmonares e cardiovasculares".
Fonte: Gustavo Fioratti (Revista da Folha) |
 



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