Reciclando a reciclagem

“Não trabalhamos com lixo como as pessoas costumam dizer, mas com materiais recicláveis”. Assim é como gosta de frisar Maria Margarete Vidal da Silva, coordenadora da Associação dos Selecionadores de Materiais Recicláveis de Santa Maria (Asmar), que completa, em abril, 15 anos de trabalho intensivo na reciclagem de matéria-prima reutilizável.

Atualmente, o grupo de catadores é formado por 14 sócios, organizados por funções específicas que passam desde a coleta e triagem até a prensagem e a negociação final com os atravessadores que recebem o produto. Mensalmente, a Asmar processa cerca de 16 toneladas de recicláveis, como vidro, sucata, papel e plástico, e permite a cada um dos associados a obtenção de uma renda mensal de cerca de R$ 500.

Por ano, gira pela associação aproximadamente R$ 135 mil. “Esse dinheiro é fruto do material desperdiçado pelas pessoas, mas que, para nós, tem um valor fundamental. Isso prova que a nossa atividade abastece a economia local, por isso eu não tenho receio de falar em números”, ressalta Margarete.

Envolvidos com a causa da Asmar, dois departamentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) decidiram se tornar parceiros da associação. Primeiramente, o departamento de Comunicação, sob a coordenação da professora Ivete Trevisan Fossá, lançou uma campanha intitulada Programa de Inclusão Social dos Catadores de Materiais Recicláveis de Santa Maria (PISC). O nome do projeto já diz tudo, e inicialmente tem proporcionado aos profissionais da reciclagem a oportunidade de ter acesso a atividades comuns e essenciais no dia-a-dia moderno, mas que antes faziam parte de um mundo distante para eles, o contato com a informática.

Além disso, em uma outra linha de atuação, o departamento de Comunicação ainda quer mobilizar os jovens estudantes que vestem a camisa do projeto a conscientizar as pessoas dentro de casa sobre a importância de selecionar bem os objetos reutilizáveis. O ponto de partida da iniciativa tem apenas dois bairros no roteiro, o Nossa Senhora de Lourdes e o Dores. De acordo com a coordenadora do projeto, a intenção é expandir, se possível, para todos os bairros de Santa Maria, mas inicialmente é preciso ter um foco específico em determinadas regiões para que sejam bem captados os resultados e, com isso, facilite a realização de uma análise sobre o desempenho das ações.

Bombajas - O outro departamento da UFSM parceiro da Asmar é o de Engenharia Mecânica. Sob a coordenação do professor Iberê Nodari, a Asmar recebeu a doação de um protótipo de um veículo que tem por objetivo facilitar a vida dos catadores durante a coleta dos materiais nas ruas. Basicamente, a invenção é formada por uma bicicleta, modelo feminino, engatada em uma carroça de arame onde serão depositados os objetos encontrados. Além de ter uma estética melhor do que os tradicionais carrinhos, é um veículo mais leve e de melhor tração, que divide melhor o peso e minimiza o esforço do selecionador.

O veículo ainda está em fase de testes e adaptação. A proposta, segundo Iberê, é montar centrais de coletas, que receberão parte do material coletado. Para isso, é necessário manter a ajuda de parceiros como a 1ª Delegacia de Polícia que ofereceu 30 bicicletas e das empresas Silencar e Santa Fé que financiam o restante do projeto.

Mais - Assim como a Asmar, existem, em Santa Maria, outras cinco empresas de reciclagem legalizadas, a Arsele, a Renascer, a Canários, a Arps e a Urlândia. No total, exercem a função de catador aproximadamente 1.200 profissionais. Margarete Silva, coordenadora da Asmar, tem orgulho no trabalho que faz, mas reclama de dois graves problemas enfrentados por todos os selecionadores de materiais recicláveis, o preconceito e a falta de conscientização e sensibilização quanto ao ato de reciclar.


Fonte:  Marcos Jorge (Jornal A Razão)