Sucata de alumínio e cobre vira "ouro"

Em tempos de altos recordes nos preços das commodities metálicas, a sucata ganhou tratamento nobre no mercado brasileiro. Nos últimos meses, a cadeia que reúne desde cooperativas de reciclagem a gigantescas fundições e siderúrgicas começou a sentir os reflexos da contínua valorização dos metais não-ferrosos na London Metal Exchange (LME) desde o começo de 2005.

"Há fundições antecipando a compra de alumínio e de outras commodities não-ferrosas porque há uma tendência de mais aperto nos preços", afirma Devanir Brichesi, diretor da Deluma, empresa de Guarulhos (SP) que fornece componentes metálicos de zinco, alumínio e latão para empresas como a Delphi, Cummins, MVM e ZF. A ameaça de novos reajustes e de escassez dos resíduos aceleraram a busca pela matéria-prima. Os compradores vão de autopeças a fabricantes de panelas, além de laminadoras. "Os lotes de sucata não-ferrosa estão entre os mais disputados nos leilões", disse Paulo Scaff, diretor-superintendente do site de leilões virtuais Superbid.

Desde o fim de 2005, o quilo da sucata de alumínio considerada de "primeira linha" foi reajustado pelos atacadistas em mais de 20%. Passou a ser negociado de R$ 5,20 a R$ 5,90, segundo empresas de fundição. Em meados do ano passado, o material era vendido por cerca de R$ 4,00 o quilo. Reajustes semelhantes ocorrem com outros tipos de sucatas não-ferrosas, como zinco, cobre e latão. Na LME, entre dezembro e fevereiro o alumínio subiu 0,6%. Está em US$ 2,4 mil a tonelada, mas aproximou-se de US$ 3 mil em certos dias. Cerca de 400 mil toneladas do metal são recicladas todo o ano no país, grande parte de latinhas para bebidas, que tem um mercado cativo.

O mercado internacional aponta desequilíbrio entre a oferta e a demanda de 100 mil toneladas de alumínio até 2008. Em boa parte dos casos, não é vantajoso substituir as sucatas por ligas virgens. Brichesi alerta que o comércio atacadista de sucata pode estar retendo estoques nos pátios para "criar uma escassez forçada" e assim alavancar seus ganhos com a procura.

Arredios, processadores de sucata procurados pelo Valor preferiram fazer declarações desde que não tivessem seus nomes revelados. Eles confirmam que a escalada dos preços embute a perspectiva de falta de material no curto prazo. Segundo um processador de São Paulo, a fiscalização sobre a procedência da sucata está mais rigorosa (parte do material coletado, principalmente cobre, provém de furtos e roubos). Isso tem reduzido o volume de material adquirido das cooperativas. Em São Paulo há mais de 2 mil processadores de sucatas ferrosas e não-ferrosas.

Enquanto o preço dos não-ferrosos segue com tendência de valorização, a sucata de ferro mostra situação oposta. Em setembro de 2004, a tonelada de baixa qualidade (misturado a outros materiais) era cotada a R$ 500. Hoje, o preço está em torno de R$ 260 e o mercado encontra-se abastecido com folga. "Em 2005, nossos custos tiveram uma queda de 2% em comparação ao ano anterior", afirmou Luiz Carlos Koch, presidente da Associação Brasileira da Fundição (Abifa). Todavia, a queda não chegou a compensar o reajuste de dois anos atrás. A queda no consumo de vergalhões e de equipamentos para o setor agrícola reduziu a demanda de sucata de ferro e aço.

Naquele ano, a sucata mais utilizada pelos setores de fundição e siderurgia (livre de impurezas) chegou a valer R$ 900 a tonelada. Hoje, o mesmo material pode ser encontrado a R$ 650. A Abifa reúne cerca de 1,2 mil empresas, responsáveis por processar quase 1,3 milhão de toneladas desse tipo de sucata. Esse volume é 15% de todo o aço reciclado no Brasil (pouco menos de 10 milhões de toneladas).

Além da queda da demanda, a pressão exercida pelos principais fabricantes brasileiros de vergalhão (Gerdau, Belgo Mineira e Barra Mansa, do grupo Votorantim), responsáveis pelo consumo de 8,4 milhões de toneladas, contribui para achatar ainda mais os preços, afirmam. Segundo um reciclador, existe casos de formação de cartel na compra de sucata. "Em alguns, limitam-se a pagar R$ 400 por tonelada pela sucata que vale, no mínimo, R$ 600. Assim, somos obrigados a vender para não ficarmos com estoques parados". Para Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do grupo Gerdau (maior comprador do país), os preços da sucata de ferro e aço estão estáveis.


Fonte:  SindusCon - SP