Dólar baixo atinge catador de lixo

A desvalorização do dólar não atinge apenas os grandes investidores. Hoje, a cotação da moeda norte-americana preocupa até os catadores de lixo. Vinculado ao dólar, o preço dos materiais recicláveis sofreu a conseqüência da queda e os trabalhadores sentiram o impacto no bolso. Para evitar demissões no setor, a alternativa foi negociar uma redução nos salários. O desafio, agora, é ampliar a quantidade de lixo reciclável coletada.

Em Campinas, há 14 cooperativas de reciclagem de lixo onde atuam 300 cooperados, segundo a Prefeitura. Na cidade, a coleta domiciliar recolhe atualmente cerca de 800 toneladas de lixo por dia. Desse total, apenas 2,5% são reciclados, de acordo com o Departamento de Limpeza Urbana (DLU).

A Cooperativa Aliança de Coleta e Manuseio de Recicláveis São Judas, por exemplo, teve de reduzir em 10% o salário de seus 30 cooperados para garantir o emprego de todos eles. "Fizemos uma reunião e definimos que, se a situação não melhorar, o salário terá de ser reduzido em mais 5%", afirmou a presidente da cooperativa, Nilce Molina. "Só para se ter uma idéia do problema, o quilo das embalagens PET era vendido a R$ 1,40 em julho. Em dezembro estava em aproximadamenteR$ 0,50", conta.

Não foi só o preço da PET que despencou. Levantamento realizado pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), associação sem fins lucrativos que reúne diversas empresas, entre elas a Coca-Cola, AmBev e Tetra Pak, aponta que uma tonelada de latinhas, que chegava a ser vendida no início do ano passado a R$ 4,2 mil, passou para R$ 3,5 mil e R$ 3,8 mil. O preço do papelão caiu de R$ 220,00 para R$ 180,00 e o preço do plástico foi reduzido de R$ 1,2 mil para R$ 1,1 mil. Na Cooperativa Santo Expedito de Coleta e Manuseio de Reciclagens, que atua na Vila Castelo Branco, o salário dos 20 cooperados, que girava entre R$ 380,00 e R$ 400,00 mensais, sofreu um corte de cerca de R$ 100,00. "A situação é preocupante", desabafa Antônio Carlos Baltazar, presidente da cooperativa.

Na Cooperativa Aliança, os trabalhadores têm a meta de ampliar a média de lixo coletada de 90 toneladas mensais para 120 toneladas por mês. Nilce explica que a solução da crise depende somente da sensibilidade da população. "Basta permitir que os coletores recolham os materiais recicláveis de casas, condomínios e comércios. A única separação que os moradores precisam fazer é entre material orgânico, como restos de alimentos e galhos, e reciclável, como plásticos, papelão e vidros".

Segundo Nilce, atualmente a cooperativa faz o trabalho de coleta em cerca de 100 locais de Campinas, a maioria deles no bairro Cambuí. Os 30 cooperados ganham agora, em média, R$ 450,00 por mês. Na Cooperativa Santo Expedito, a meta é também ampliar a quantia de lixo coletada. No entanto, Baltazar lembra: "Quando a oferta aumenta, o preço cai".

O diretor-executivo do Cempre, André Vilhena, argumenta que as cooperativas devem buscar alternativas, como diversificar os materiais trabalhados e buscar musculatura como empresa. "Assim, as cooperativas podem deixar de vender para sucateiros e vender diretamente para indústrias de reciclagem", disse. "A organização do setor é tão importante quanto a valorização do dólar", completou Vilhena.


Fonte:  Raquel Lima (Cosmo On Line - SP)