Desemprego impulsiona corrida da sucata

A crise econômica chegou ao lixo. A estagnação da indústria e o aumento de carroceiros nas ruas, que coletam papéis, latas, peças de ferro e garrafas usados reduziu o valor desses resíduos. Há excesso nos ferros-velhos e nos estoques das empresas de reciclagem. Resultado: o preço do quilo do alumínio usado, por exemplo, caiu mais de 20% desde abril.

Os dados sobre o aumento do número de catadores no Brasil são imprecisos. Mas uma série de indícios aponta uma forte expansão desse contingente: um ano atrás, 80% do volume de papel comprado pelos "aparistas" (intermediadores da venda de papel usado para as indústrias) tinha como origem as gráficas e os bancos. Os 20% restantes eram originários de cooperativas ou ferros-velhos, que são abastecidos pelos catadores e carroceiros.

Agora a situação mudou. Metade do material que chega aos "aparistas" é fornecido pelas cooperativas e pelos ferros-velhos.

De acordo com a Anap (Associação Nacional dos Aparistas de Papel), em 2001, 45 mil catadores forneciam material para os depósitos e cooperativas. No ano passado, o número subiu para 53 mil.

Cooperativas de catadores, como a Recifran, instalada sob um viaduto no bairro do Glicério (centro de SP) e mantida por frades franciscanos, identificam maior procura de pessoas interessadas em trabalhar no setor. "Temos hoje 40 catadores. Até o final de julho (quando vai para nova sede) serão mais 30", diz o frei André Gurzynski, diretor do Serviço Franciscano de Solidariedade. Diariamente, quatro pessoas vão à Recifran buscando trabalho.

Segundo o Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), há no país cerca de 500 mil catadores de papéis, metais, plásticos e vidros. Muitos ficaram desempregados nos últimos seis anos. Em geral, têm pouca instrução e são os primeiros dispensados quando as empresas decidem demitir.

A crescente presença dos catadores na economia obrigou o Ministério do Trabalho a recolhecê-los na nova Classificação Brasileira de Ocupações, no final de 2002. "A inclusão ocorreu por imposição do mercado de trabalho. O reconhecimento é um primeiro passo, porque indica que se trata de profissão emergente", diz Claudia Paiva, do ministério.

Queda nos preços
Os preços dos resíduos para reciclagem variam com o mercado. Quanto maior a oferta, menor o preço pago. É o que ocorre agora, com mais catadores e menos encomendas das indústrias de material a ser reciclado.

André Vilhena, diretor-executivo do Cempre, afirma que a situação no setor é frágil. "A queda de 14,4% nas vendas de papelão ondulado novo registrada neste semestre tem resultados na reciclagem", afirma Vilhena.

O quadro econômico reflete os problemas no setor. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego geral no Brasil subiu de 12,4% para 12,8% entre abril e maio. O PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre deste ano registrou uma queda de 0,1% em relação aos últimos três meses de 2002.

O fato é que a economia está empacada e os carroceiros também sentem os efeitos.

Boa parte da mercadoria deles tem perdido valor desde o final de abril. O preço do quilo de papelão pago pelos ferros-velhos caiu de R$ 0,19 para R$ 0,17, o de jornal de R$ 0,19 para R$ 0,11, e o de ferro de R$ 0,18 para R$ 0,12.

De acordo com o Cempre, os preços dos resíduos variam de cidade para cidade. A Secretaria de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo avalia também que a nova taxa do lixo levou os paulistanos a fazerem coleta seletiva dos resíduos, para diminuir o volume de lixo e a taxa a pagar. O que aumentou a oferta de resíduos.

A despeito dos problemas dos trabalhadores, a indústria de reciclagem está em alta no Brasil. O faturamento das indústrias com produtos reciclados saltou de R$ 3 bilhões para R$ 4 bilhões entre 2001 e 2002. O Cempre não arrisca um número para 2003, por causa da queda de preço de materiais e da paralisação da economia.

Pessoas com grau superior também estão trabalhando no setor. O arquiteto Alberto Zanini, 49, montou há quatro meses um ferro-velho. Fatura cerca de R$ 10 mil por mês, mas ainda não teve lucro. "Estou pensando nesse negócio a longo prazo", diz Zanini. Sua renda é garantida com trabalhos esporádicos de arquitetura.

Profissão de catador atrai família

Primeiro foi uma irmã. Depois, ele. Mais tarde, a mulher. Seguiram-no outra irmã, o genro e três sobrinhos. Os novatos são um irmão e outro sobrinho, recém-chegados de Palmares, interior de Pernambuco. Ao todo, dez pessoas da família de José Marcolino da Silva, 46, somado o próprio, trabalham como catadores de resíduos no centro de São Paulo.

Há 28 anos na cidade, o relato de Silva em pouco difere do da maioria dos carroceiros: foi ajudante e soldador em uma metalúrgica e prensista em indústria de embalagem. O último emprego, há dez anos, em uma tecelagem, rendia cerca de R$ 700.

Conta que, demitido, passou mais de um ano à procura de um trabalho registrado até decidir comprar um cavalo e uma carroça e recolher sucata em Ferraz de Vasconcelos (Grande São Paulo).

Migrou para a região da Sé, em 99, influenciado pela irmã mais velha, Maria Lúcia, ex-faxineira, que estava na região havia nove anos como catadora. Maria Lúcia ganhava quatro vezes mais que o ex-metalúrgico. "Quando vim para o centro tinha muito material disponível e pouco carroceiro", diz Silva. Hoje, na área que atua, concorre com outros seis carroceiros. Ele e a mulher ganham juntos R$ 600 por mês.

O ex-metalúrgico e sete familiares são membros da Recifran, cooperativa de catadores, instalada debaixo de um viaduto. O irmão e o sobrinho estão na fila para entrarem na cooperativa. Por ora, trabalham como "avulsos", vendendo material para os cerca de 20 ferros-velhos da região - e que pagam 30% menos que recebem os cooperativistas.

A disputa entre os catadores obriga o estabelecimento de regras de convivência: não se pode coletar material em ponto que pertence a outro. Desrespeitar a norma significa ser expulso do ponto pelos parceiros.

Volume de papel reciclado recua 13% na Klabin

A indústria de papelão e papel é a que tem registrado maior retração no processamento de resíduos sólidos, devido à paralisação da economia. Isso contribuiu para a queda no preço de resíduos pagos aos catadores.

A Klabin, por exemplo, diminuiu nos últimos dois meses em 13% o volume de papelão e papel reciclados nas suas quatro fábricas montadas para isso.

Em 2002, a Klabin reciclou 400 mil toneladas de papel e papelão. "Ainda não temos noção de quanto será o total em 2003, mas as encomendas de embalagens, como papelão, caíram 15% nos últimos meses", afirma Lucas Godinez, diretor-gerente de embalagens da Klabin.

Com a crise, a Klabin reduziu de R$ 430 para R$ 420 o preço da tonelada que paga para os picadores de papelão e papel. Godinez diz, no entanto, que em dezembro o valor era de R$ 400. Segundo ele, praticamente 100% do papelão é reciclado no Brasil. Isso deve contribuir para uma disputa pelo produto a médio prazo, afirma.

A reciclagem de papel e papelão mobiliza entidades como a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo). Toda semana, a Bovespa vende o papelão e o papel. O volume mensal chega a 1,5 tonelada.

Outro setor que registra queda no preço é o de aço usado, segundo catadores e pessoas envolvidas no negócio. Eles dizem que houve redução de cerca de 30% no valor pago pela sucata.

O IBS (Instituto Brasileiro de Siderurgia) não comenta preços, mas diz que 25% das 32 milhões de toneladas de aço que devem ser produzidas no Brasil neste ano virão da reciclagem.

Domingos Somma, vice-presidente de operações da siderúrgica Gerdau, diz que em média não está pagando menos pela sucata de materiais ferrosos.

Fonte: Lászlo Vargas / José Alan Dias