Asfalto reciclado com pneus velhos ajuda reduzir impacto ambiental

Pesquisadores do Laboratório de Mecânica de Pavimentos (LMP) da Universidade Federal do Ceará (UFC) estão desenvolvendo um método de reciclagem que visa aprimorar tecnologias e produtos no setor de asfalto. O projeto, que a equipe garante ter como base o rígido respeito ao meio ambiente, contribui para reduzir a exploração de jazidas de petróleo e a deposição inadequada no ecossistema de materiais poluentes.

O revestimento de vias públicas e de estradas sofre um processo de envelhecimento e desgaste devido o uso contínuo e principalmente por causa da oxidação provocada pelo contato com outros produtos, exigindo substituição após dez anos. A alternativa adequada tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental é a reciclagem, segundo o entendimento técnico.

No processo de reciclagem, uma mistura asfáltica já existente, geralmente em condição deteriorada, é raspada (fresada) e adicionada a novos agregados e ligantes, o que permite o amolecimento do material envelhecido e a formação de uma massa homogênea. Pode-se usar ainda um agente rejuvenescedor (AR) derivado do petróleo que repõe as propriedades do asfalto perdidas no processo de envelhecimento.

A reciclagem de revestimentos asfálticos não é novidade - teve início na década de 30 -, mas seu emprego em larga escala no Brasil só ocorreu no começo dos anos 70, em algumas regiões. Só há pouco tempo a iniciativa de reaproveitar o revestimento desgastado começou a se estender às regiões Norte e Nordeste. Em Fortaleza (CE), por exemplo, contabiliza-se a existência de cerca de 3 mil m³ de material envelhecido abandonado em área aberta, que pode contaminar o solo e o lençol freático, e que podem ser empregados no processo.

Com recursos concebidos pelo Fundo Setorial do Petróleo (CT-Petro), o LMP passou a trabalhar em conjunto com a Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste (Lubnor), uma empresa local da Petrobrás. Essa refinaria produz asfalto a partir de um tipo de petróleo pesado (de base naftênica), importado da Venezuela, conhecido como Bachaquero. De acordo com o engenheiro civil Jorge Soares, da UFC, o petróleo Bachaquero da Venezuela, utilizado no Ceará há mais de 30 anos, produz um excelente asfalto para pavimentação. “Mesmo assim, estamos investigando um petróleo do Espírito Santos e os resultados têm sido muito bons. Em outros estados, como o Rio de Janeiro, já se usa asfalto produzido à base de petróleo nacional”, diz Soares.

Ele destaca que a avaliação das propriedades desta matéria-prima nacional é o principal objetivo do projeto. O LMP analisa o agente AR-500 e testa diferentes porcentagens de material fresado na reciclagem, para identificar a dosagem ideal. “Uma mistura com 30% de asfalto envelhecido reúne as propriedades adequadas, todavia, acreditamos que esse valor pode ser maior”, acrescenta o engenheiro.

O engenheiro químico João Augusto Paiva, responsável pelo programa de P&D da Lubnor, lembra que "os métodos existentes precisam ser adequados às condições locais”. No processo, podem ser empregadas técnicas de reciclagem a frio, em que o asfalto é diluído em água, ou a quente, com o aquecimento da mistura, que, de acordo com Soares, apresenta melhor resultado em laboratório. O material reciclado é testado em ensaios que avaliam sua resistência, rigidez e vida útil.

O LMP também pesquisa a modificação da estrutura do produto a partir da incorporação de aditivos como a borracha de pneu, com o objetivo de melhorar as propriedades do asfalto, tornando-o mais elástico, por exemplo. Porém, o principal impulso para as investigações sobre o uso do asfalto-borracha é a preservação ambiental, uma vez que se aproveita borracha de pneu moído, dando assim um destino ecologicamente correto a um material altamente impactante para o meio ambiente.

O processo de obtenção desse pavimento à base de borracha é semelhante ao aplicado na fabricação de asfalto convencional, variando apenas a temperatura necessária para compactar a massa. Entre as principais vantagens do novo produto estão: redução de antioxidantes e do carbono da borracha; aumento da flexibilidade, causada pela elevada concentração de elastômeros (polímeros com propriedades semelhantes a borracha); aumento de até 17º C no ponto de amolecimento, garantindo maior resistência à deformação, e baixa suscetibilidade a variações térmicas.

Só por parte das montadoras de automóveis são incorporados a cada ano ao mercado cerca de 60 milhões de pneus (5 peças por veículos) por ano. Por isso, muitos entendem que ao lado das indústrias pneumáticas elas também são responsáveis por boa parte dos pneus descartados de forma inadequada na natureza. Essa deposição irregular contribue para a proliferação de vetores de doenças, como dengue. A queima dos pneus velhos a céu aberto emite uma série de gases venenosos, aumentam o risco de incêndios, poluindo o ar e contaminado o lençol freático.


Fonte: Camila Cotta