A RECICLAGEM NO BRASIL E A MÚLTIPLA TRIBUTAÇÃO

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HELIANA KÁTIA TAVARES CAMPOS

  

Consultora da Ong Água e Vida
Engenheira Civil e Sanitarista
Membro da coordenação nacional do Fórum Lixo e Cidadania
Ex-superintendente de limpeza pública de Belo Horizonte (MG)
Responsável pela primeira coleta seletiva feita por catadores de lixo (Belo Horizonte - MG)

“NÃO HÁ FRONTEIRAS PARA OS QUE LUTAM”

Cerca de mil catadores e técnicos da América Latina e de outros países se reúnem em Caxias do Sul, RS, para discutir a gestão dos resíduos em seus países e a repercussão que as decisões econômicas e políticas internacionais têm na sua atividade e mostram que a vida deveria ser bem melhor e será

Eles foram chegando em grupos, de mansinho, pegando suas pastas e crachás e timidamente travando os primeiros contatos com seus colegas vindos das mais diferentes regiões do Brasil, Argentina, Uruguai, México, Canadá e França. Em pouco tempo todos se embalavam, sorriam, cantavam e dançavam ao som de hinos e paródias, criados para a categoria pelos diversos artistas presentes no evento, que representavam cenas do seu cotidiano. Com muita alegria davam vivas ao “I Congresso Latino Americano de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis”, realizado em Caxias do Sul de 19 a 23 de janeiro de 2003, promovido pelo Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis e Fórum Nacional de Estudos de População de Rua.

Esses profissionais, catadores e catadoras de materiais recicláveis, ambientalistas natos, coletam e recuperam no trabalho que realizam diariamente, aquilo que nós, os mais abastados, descartamos de forma descompromissada e que lhes garante a sobrevivência: o lixo.

Para superar a discriminação, há que entender o mundo
Você pode imaginar o tipo de discussão realizada por quase mil catadores e técnicos que trabalham na coleta seletiva formal ou informalmente implantada em todos esses países? Debatiam desde a forma como cada um realiza a sua atividade no cotidiano, as principais dificuldades encontradas, os apoiadores e também o que significa a ALCA, o NEOLIBERALISMO, a GLOBALIZAÇÃO e a influência desses modelos na vida e na atividade profissional de cada um.

O que todos esses profissionais têm em comum? Na maioria absoluta dos municípios representados, esses catadores e catadoras de materiais recicláveis são discriminados, maltratados, rejeitados, ignorados e em muitos casos - o que é ainda mais cruel - são perseguidos. Em vários momentos do Congresso explicitaram o desejo de uma maior conscientização da população sobre os problemas criados pelo excesso de lixo gerado e descartado indevidamente no planeta e sobre a importância de sua separação em cada casa e local de trabalho, facilitando a coleta seletiva e a reciclagem dos materiais.

Separe os recicláveis e doe aos catadores: Você pode mudar a face da Terra
Das faixas por eles criadas para serem utilizadas na Marcha do dia 23 em direção ao Fórum Social Mundial e Manifestação Pública em Porto Alegre, uma se destaca com os dizeres de um provérbio árabe: Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo muitas coisas pequenas, mudarão a face da Terra”. Esse provérbio toca a auto-estima de cada um que quer exercer o seu direito de cidadania e participar ativamente na mudança de um dos quadros mais degradantes de nossa sociedade atual: a presença de crianças, adolescentes, mulheres, idosos, nas portas das nossas casas, dos supermercados, dos restaurantes e, o que é ainda pior, em cima dos lixões existentes na maioria das cidades brasileiras, revirando o lixo em busca de comida e de materiais recicláveis para o sustento de sua família.

Cada um de nós, brasileiros, argentinos, uruguaios, mexicanos, franceses, canadenses e cidadãos de tantos outros países que não puderam se fazer representar neste Congresso pode fazer a sua parte. Conscientes do valor econômico dos recicláveis e dos inúmeros benefícios ambientais e sociais que a reciclagem traz, todos nós podemos, com o gesto de separar estes materiais e fazer com que eles cheguem até o catador, realizar uma coisa pequena, em um lugar pequeno, mas que pode contribuir para mudar a face da Terra.

O ato da separação domiciliar do lixo realizado por uma única pessoa pode parecer insignificante em termos ambientais e sociais, dada a dimensão que o problema alcança nos dias atuais. No entanto, duas ou três pessoas, uma família, um quarteirão, um bairro, já pode significar um pouco; uma região da cidade, uma cidade inteira, uma associação de municípios, pode significar muito; um estado e um país pode significar a vitória da racionalidade, da solidariedade, do comprometimento com a vida.

Considerando que não somos países, não somos estados, não somos cidades nem bairros e muito menos quarteirões, podemos fazer aquilo que corresponde à nossa capacidade como indivíduos: mudar a nós mesmos, mudar nossos hábitos em nossas casas, em nossos locais de trabalho, nos espaços públicos e privados que freqüentamos, racionalizando nosso consumo e colaborando para que os resíduos gerados tenham a destinação adequada. Após a mudança do nosso comportamento individual temos mais condições de interferir e propor mudanças em nossos espaços coletivos, em nossas escolas, em nossas associações de classes, em nossos condomínios, em nossos locais de trabalho em nossas cidades, em nossos estados e em nossos países. O efeito demonstrativo tende a ser eficiente na comprovação dos resultados.

O exemplo tem que vir de cima
No Brasil, onde o “companheiro” presidente Lula propõe o Programa Fome Zero como prioritário para o seu primeiro ano de mandato, nada mais coerente do que implantar em toda a Esplanada dos Ministérios um processo de combate ao desperdício e descarte seletivo dos materiais recicláveis, que podem ser doados às diversas associações de catadores existentes no Distrito Federal. Desta forma, será propiciada renda a essas famílias que hoje, tão perto do poder, trabalham nos lixões e nas ruas da capital explicitando a mais perversa e cruel face do capitalismo. Essa atitude pode também incentivar os governos estaduais e municipais a adotar tais medidas estimulando a coleta seletiva em outras localidades do país.

Nada mais coerente do que a convocação pelos governos, pela mídia, pelas igrejas, pelos dirigentes de instituições públicas e privadas, Ongs, partidos políticos de todas as crianças, adolescentes homens e mulheres deste país para um ato de solidariedade com a vida separando todos os resíduos gerados para encaminhamento aos catadores para facilitar a coleta seletiva e a reciclagem.

Nada mais coerente do que implantar programas nacionais, estaduais e municipais de apoio à organização das associações e cooperativas de catadores, financiando galpões e equipamentos para o trabalho da triagem, enfardamento e comercialização dos resíduos, a motorização dos carrinhos utilizados na coleta seletiva do lixo, o incentivo a indústria de reciclagem, o encerramento dos lixões e a implantação de aterros sanitários.

A geração de renda para os catadores e de emprego nas indústrias de reciclagem combatem com dignidade a fome de parte significativa das populações mais carentes das áreas urbanas do nosso país. A categoria de catadores tem sua atividade profissional reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego e a implantação formalizada da coleta seletiva pode aumentar a fonte de renda para o grande contingente desses profissionais.

É preciso se indignar e querer mudar
Provoca revolta a fome de milhares de brasileiros, assim como a situação e as condições de trabalho da grande maioria dos catadores. Se você ainda não conhece um lixão, não deixe de fazê-lo. A visita a um lixão deveria ser atividade obrigatória em todas as escolas do país, e realizada por todos os cidadãos comprometidos com a vida. Ver crianças, jovens e adultos disputando um pouco de comida com cavalos, porcos, cachorros, urubus, pode até parecer um mau presságio e a idéia de que o futuro está significativamente comprometido. No entanto, como a sociedade brasileira tem uma enorme capacidade de dar respostas a grandes desafios, como foi exemplo o corte no consumo de energia, com certeza dará uma resposta positiva a essa demanda cidadã. Prova disso são os exemplos de programas de coleta seletiva já implantados com o envolvimento efetivo dos catadores nos municípios de Belo Horizonte, Porto Alegre, São Bernardo do Campo, somente para citar alguns.

O Fórum Nacional Lixo e Cidadania, hoje composto por 56 instituições governamentais, não governamentais, instituições sociais, da iniciativa privada, religiosas, financeiras, internacionais, de representação dos municípios, Ministério Público, movimento de catadores, mídia, representação parlamentar, tem como objetivos a erradicação do trabalho infantil com o lixo, o apoio aos catadores e o fechamento dos lixões. O Fórum teve um grande sucesso nos primeiros anos de sua existência com a colocação de cerca de 46 mil crianças antes trabalhadoras no lixo na escola e tem como desafio imediato o incentivo à implantação da coleta seletiva em parceria com os catadores e o fechamento dos lixões em todo o país.

Seja um fiscal do lixo, solidário nesta luta
Você está convidado a participar dessa grande ação de cidadania, fiscalizando as ações já implantadas, separando e doando materiais recicláveis aos catadores e incentivando seu município na gestão dos resíduos sólidos, propondo e participando dos fóruns municipais Lixo e Cidadania, disponibilizando os resíduos separados para a coleta, mantendo a cidade limpa, incentivando o fechamento do lixão e a implantação de aterro em sua cidade.

Essa é uma atitude em favor da vida. Nossa ação reforçará a luta dos catadores que tiveram como lema do seu I Congresso Latino Americano o slogan: “NÃO HÁ FRONTEIRAS PARA OS QUE LUTAM”. Poderíamos completar: “NÃO HÁ MOTIVOS PARA NÃO SERMOS SOLIDÁRIOS NESSA LUTA”. Esse é um convite a uma tomada de decisão a favor da vida. É começar agora. Mãos a obra!


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