Reciclagem: uma preocupação de poucos
(*) Por Cosmo
Fernando Pacetta
E o case está criado,
aceito e estabelecido. Em 10 anos, conseguimos conquistar a aceitação da reciclagem no
mercado. Transformando material plástico em produtos viáveis, fizemos da Juntafácil uma
empresa verdadeiramente ecológica, que respeita e preserva o meio ambiente, embora essa
tarefa não tenha sido das mais fáceis.
O trabalho de reciclagem exige esforço, boa vontade e conhecimento. Exige uma cuidadosa
seleção do material a ser reciclado, para seguir na preparação, extrusão e injeção
das peças. Portanto, reciclar é tão caro quanto usar matéria-prima virgem.
O controle da reciclagem é rigoroso. Atualmente, requer pessoal treinado e escolha
adequada e perfeita dos materiais, sobretudo diante da infindável quantidade de plástico
processada nos últimos anos.
É indiscutível que cada vez mais, a reciclagem se torna necessária. Na Juntafácil,
estamos cumprindo com a nossa parte. Há cerca de 10 anos, produzimos espaçadores, perfis
e inúmeras peças para a construção civil, com materiais reciclados.
Um dos grandes problemas que enfrentamos, e é o mesmo enfrentado por tantas outras
indústrias que trabalham com reciclagem, é a política de impostos adotada pelo governo,
que insiste em tributar materiais já foram utilizados e que, portanto, já responderam
por suas responsabilidades. Esse sistema vem inviabilizando a transformação do
plástico. Não existe qualquer tipo de incentivo ou isenção de impostos, por parte do
governo. Se este não estudar rapidamente a questão ambiental e a questão tributária
sobre os materiais reciclados, certamente daqui a cinco anos, teremos um rio de PETs
substituindo o rio Tietê. Principalmente a partir do estágio em que as grandes
cervejarias, no Brasil, despertam para a substituição do vidro pelo plástico, e
acredita-se que, daqui a alguns anos, o PET para cerveja será tão competitivo quanto
outras embalagens.
De acordo com reportagem publicada pela Revista Pack, em julho do ano passado, "a
novidade está deixando o setor eufórico, pois aguça a concorrência entre fabricantes
de vidro e plástico. A previsão é que as garrafas de PET comecem a circular a partir do
segundo semestre deste ano, e a meta inicial dos fabricantes prevê que a resina PET
cerveja conquiste pelo menos 10% do mercado, o que significa 800 milhões de litros de
cerveja.
O texto informa ainda que a Abividro-Associação Técnica Brasileira das Indústrias
automáticas de Vidro observou, no ano passado, que das 869 mil toneladas de embalagens
que as vidrarias forneceram, 67%, ou seja, 582 mil toneladas, destinaram-se a bebidas, e
desse total 378 mil toneladas acondicionaram cervejas.
A entidade lançou, conforme destaca a reportagem, programas de coleta de garrafas que
podem ser trocadas por alimentos, cobrindo cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju,
Fortaleza e Recife. Ressalta, ainda, que o Brasil é o quarto produtor mundial de cerveja,
com produção de 8,2 milhões.
Portanto, se a atitude do governo persistir, teremos milhões de garrafas
não-retornáveis, gerando um grave problema ecológico para o país, onde existe um
consumo de líquidos similar aos países de primeiro mundo, mas nenhuma política de
incentivo para a reciclagem. No Brasil, os plásticos ocupam entre 15 a 20% do volume do
lixo brasileiro.
Nos Estados Unidos, toda a comunidade investe em reciclagem de materiais, e conta com
apoio do governo nesta ação. E o fabricante tem uma série de instrumentos de incentivo.
No Brasil, o governo precisa partir para uma política de apoio a reciclagem semelhante.
Senão houver incentivos fiscais, para favorecer a indústria de reciclagem brasileira,
deduzindo inclusive impostos na venda de transformação de sucata, vamos criar um grave
problema. Basta olharmos para qualquer rio, hoje já coberto por PETs, que ajudam a causar
enchentes e a entupir esgotos, aumentando cada vez mais os custos de manutenção
pública.
A revista Plástico Moderno noticiou, na edição de setembro de 2000, que a "capital
paulista gera em torno de 12.500 t/dia de lixo. Quase metade desse volume é passível de
reciclagem, conforme mostra um estudo do Cempre-Compromisso Empresarial para a Reciclagem,
sendo que o plástico responde por 22,9% desse montante.
Hoje, as indústrias que adotaram os sistemas de reciclagem o fazem por conta própria, e
são puros idealistas, pois enfrentam os mesmos custos se fabricassem com matérias-primas
virgens. O custo operacional da reciclagem também enfrenta altas deduções de impostos,
ao passo que quando tira o lixo das ruas e o transforma, continua pagando imposto.
Se as cervejarias usarem o sistema PET, essa política tributária precisa mudar. Existe
um grande descaso, talvez falte um líder que levante esta bandeira, alguém sinceramente
preocupado com o meio ambiente em que vivemos, para mudar tal realidade.
Dentro de cinco a seis anos, viveremos um caos insustentável. No setor da construção
civil, e em seu segmento, pelo menos, a Juntafácil é pioneira no uso de materiais
recicláveis, e continua sendo a única indústria a adotar este sistema. Excetuando-se a
atitude de pequenas empresas, ninguém está preocupado em retirar estes resíduos
plásticos em favor do meio ambiente.
(*) Cosmo Fernando
Pacetta é diretor-presidente do Grupo Juntafácil
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