Reciclagem também na cultura do consumo

Apenas uma em cada cinco cidades brasileiras implementou algum tipo de coleta seletiva de resíduos, segundo a pesquisa Ciclosoft, produzida pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem). Um número muito baixo, considerando que já deveríamos ter extinguido os lixões há dois anos, como previa a lei que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A falta de coleta seletiva, claro, prolonga a extinção dos lixões.

Apesar de o tema ser de extrema relevância, pouco ouviremos sobre isso no processo eleitoral. Infelizmente, não está na agenda dos candidatos que vão disputar os cargos de prefeito e vereadores em outubro. Poucos são os que abordarão, com sinceridade, a importância da coleta seletiva e da reciclagem para o bem-estar da sociedade,
do eleitor.

É que o assunto parece distante. Logística reversa e economia circular são expressões pouco compreendidas pela população, mesmo sendo o consumidor um elo dessa cadeia. A palavra sustentabilidade, por exemplo, só passou a ser um pouco mais observada há pouco mais de 20 anos, quando ocorreu no Brasil a Rio-92 (Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento).

O tema, entretanto, está batendo à nossa porta. Aliás, já entrou. O impacto ambiental de nossas decisões de consumo está sentado à mesa, está na nossa garagem, no nosso guarda-roupa. Orienta nossas compras quando navegamos pela internet e quando assistimos ao telejornal. Está a nos dizer: sim, você também é responsável pelo
clima do planeta.

Para perceber isso, entretanto, é necessário algum estímulo. Ou desestímulo. A pesquisa Consumo Conscientedos Brasileiros 2016, realizada pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional dos Dirigente Lojistas (CNDL), aponta que “grande parte dos consumidores ainda prioriza atitudes ligadas aos aspectos financeiros de uma compra – o que se intensifica pelo momento de crise econômica em que o país atravessa”.

Segundo a pesquisa, 53,7% dos consumidores geralmente analisam produtos e marcas e, se o fabricante adotar práticas prejudiciais ao meio ambiente ou à sociedade, desistem da compra. Convenhamos, o percentual deveria ser maior. Olhando pelo outro lado da
moeda, significa que quase metade dos brasileiros não se importa se o que consomem prejudica o meio ambiente e a sociedade.

A maneira mais eficaz de alterar este cenário é, acreditamos, impactar positivamente o bolso do consumidor. Estimulá-lo, financeiramente, a adquirir comportamentos mais sustentáveis. Bens e produtos com menores impactos ambientais devem ter uma tributação diferenciada, de forma a estimular o seu consumo ou desestimular o consumo de bens e produtos com maiores impactos ambientais.

A Tributação Verde deveria ser uma solução permanente para induzir a economia de baixo carbono, mas é adotada apenas em questões pontuais. Não é uma política de governo, mesmo sendo prevista na Constituição. Em seu capítulo da Ordem Econômica e Financeira, artigo 170, a Constituição estabelece como um dos princípios a “defesa do
meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação”.

O ciclo do consumo e da produção pode, então, gerar uma economia circular. O consumidor exigindo bens e serviços de baixo impacto ambiental, estimulando soluções mais sustentáveis e mecanismos de coleta do resíduo provocado pelo consumo. Assim, cria-se viabilidade para o uso de materiais reciclados, que serão aproveitados
para produção de novos bens e serviços de baixo impacto.

Tomara que as expressões de economia verde até agora pouco compreendidas entrem de vez na pauta dos candidatos eleitos em outubro. A atitude certa nas políticas públicas locais pode contribuir para a adoção de medidas adequadas também na área federal.

*Presidente executivo da Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade), economista, formado pela Universidade de Brasília, MBA em direito pela FGV e mestre (M.Sc.) pela Universidade de Oxford, Inglaterra.

5 de abril de 2017 em Artigo.

Tratamento de lixo no Japão é exemplo de cuidado com o ambiente

As ruas das cidades são absolutamente limpas. A preocupação das pessoas vai além da reciclagem. O cuidado é não produzir muito lixo, mas é inevitável ter sujeira, dejetos, coisas que a gente joga fora. A visita a uma moderna usina de tratamento mexe com a cabeça da gente.

Elas se espalham pelo Japão. De longe, parecem prédios, mas são chaminés, a parte mais visível de como os japoneses tratam o lixo. Não há depósitos abertos, lixões, mas locais como o da cidade de Saitama, vizinha a Tóquio.

O entra e sai dos caminhões é constante. Trazem lixo dos bairros ao redor, quase 400 toneladas por dia. Os moradores já separam em casa o que é orgânico do que é reciclável. Cada caminhão traz um tipo de lixo, tratados de forma diferente.

Por trás das portas, fica o depósito de lixo orgânico. Quando os caminhões descarregam, é que descobrimos o tamanho do desafio: enorme. Tudo que chega é controlado de uma sala de vidro, um operador carrega remotamente o lixo até o incinerador.

Lá dentro, a queima acontece por uma hora, à temperatura de 1.800 graus centígrados. De um lado, forma-se um gás, que por uma tubulação alimenta uma turbina geradora de energia. De lá, sai eletricidade para atender o equivalente a 10 mil casas. De outro, o que sobra da tal queima, resíduos e metais, que são reaproveitados em sua quase totalidade como, por exemplo, para asfaltar ruas.

No mesmo prédio, mas para outro grande depósito, vai o lixo reciclável, o cuidado ali é outro. Uma enorme garra de aço tem capacidade de transportar até 3 toneladas de carga. No fundo, só tem plástico. Todo esse material vai para uma separação manual, antes de ir para reciclagem.

O processo é rápido. Funcionários separam garrafas pet do plástico comum. Latas de alumínio, metais, são distribuídos em outro setor. E, no final, tudo já sai embalado, limpo, pronto para ser vendido para centros de reciclagem. Assim, do total de lixo que chega à usina, apenas 4% não rendem nada, mas só até agora.

Um dos funcionários conta que, no futuro, ainda serão aproveitados esses 4%, retirando vários tipos de metal contidos ali.

Para quem se espanta com tanta dedicação ao lixo, tem mais. Em um prédio ao lado, foi montado um centro social, onde os moradores se encontram. Podem mergulhar em banheiras com água a 40 °C, fazem ginástica. Tudo funciona com a energia gerada na turbina do lixo.

O senhor Ishikawa, de 70 anos, vai quase todo o dia e diz que essa é uma boa iniciativa para aproveitar o lixo e manter os idosos saudáveis. O japonês aprende que, quando se trata de lixo, nada pode ser desperdiçado.

A queima do lixo pode ser perigosa, pode jogar poluentes na atmosfera, mas os japoneses dizem que colocaram filtros poderosos nas chaminés. O custo total de uma usina como essa, com área de lazer e tudo, é salgado, quase R$ 800 milhões.

Alguns podem dizer, “O lixão é mais barato”. Mas no longo prazo não é mais barato: pelo impacto ambiental de um lixão, nos rios, no solo, na saúde das pessoas. Lixo abandonado não gera energia, não bota aqueles velhinhos para se encontrar, se exercitar. Lixo não precisa ser problema, se for bem administrado.

(FONTE: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2017/03/tratamento-de-lixo-no-japao-e-exemplo-de-cuidado-com-o-ambiente.html)